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Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema TOP 10 - 2007 TOP 10 - 2006 TOP 10 - 2005 TOP 10 - 2004 SITES E BLOGS HISTÓRICO
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Sábado, Abril 23, 2005
A INTÉRPRETE (The Interpreter, 2005, Sydney Pollack) Ter passado seis anos sem filmar depois do fraquinho Destinos Cruzados, de 1999, só fez bem a Sydney Pollack. Autor respeitável, o diretor preparou com esmero seu retorno à cadeira na qual fez sucesso nos anos 70 e 80, o que torna o novo trabalho um dos melhores trabalhos do cineasta. Criado como um thriller de suspense policial, o filme avança os padrões do gênero ao utilizar uma história atual como vertente principal para o desenrolar dos acontecimentos. Em A Intérprete, uma jovem que trabalha na sede das Organizações das Nações Unidas descobre por acaso um plano para matar o ditador de Matobo, um país africano que sobrevive em meio à guerrilha de dois grupos que tentam tomar o poder, mas acaba se tornando a principal suspeita ao ter seu passado investigado por um agente do FBI. O grande atrativo do filme certamente é a dupla protagonista, Nicole Kidman e Sean Penn, que com atuações fortes e precisas mantêm o clima de tensão necessário ao desenvolvimento da ação - principalmente a diva, que marca ponto ao escolher um papel que ainda não tinha vivido nas telonas, reafirmando sua extrema capacidade de moldar-se aos mais diferentes estilos. Mas o que surpreende é o texto bem amarrado e os diálogos convincentes, presentes no bom roteiro escrito por Charles Randolph, Steve Zaillian e Scott Frank. A Intérprete, não foge à regra dos clichês típicos da temática, mas consegue administra-los muito bem, dando um motivo real para a sua existência no decorrer da trama. Fora isso, é bom demais procurar uma diversão séria e inteligente e encontra-la num filme em que Denzel Washington não esteja presente. | Sexta-feira, Abril 22, 2005
(idem, 2004, Cláudio Torres) A primeira incursão brasileira pelo gênero fantástico estilhaça a estréia de Cláudio Torres como diretor. O que parecia caminhar para mais um bom drama social, acabou conduzindo a um fracasso na construção da temática que abandona a crítica e perde o rumo. Tudo em Redentor parece deslocado, salvo raras exceções, como Fernanda Montenegro - sempre competente, dessa vez domando uma personagem não linear e dúbia - e a excelente fotografia e direção de arte. Mas ainda assim, para um filme que teve um longo processo de produção, levando quase sete anos para chegar às telas, é muito pouco. | Quinta-feira, Abril 21, 2005
ALGUÉM TEM QUE CEDER (Something's Gotta Gives, 2003, Nancy Meyers) Se tem uma coisa que Nancy Meyers conhece bem é charme. Talvez por isso seu último trabalho seja esmerado com rigor nessa palavrinha, ao retratar com extrema beleza a história de um casal que à beira da velhice descobre o real significado de se estar apaixonado. Lançando mão de artifícios já bem explorados para criar o clima de encantamento necessário ao andamento do tema e o conseqüente envolvimento do público - a música, as locações, o texto - a diretora e roteirista não inova, mas nem por isso entrega um filme como qualquer outro anterior, mesmo por que contar com mestres como Diane Keaton e Jack Nicholson para os papéis principais já torna o trabalho muito mais interessante. Ainda assim ela não hesita em coloca-los numa trama em que gradualmente os dois são despidos daquela aparência racional para embarcar num jogo sentimental onde a fuga nunca vai ser o melhor caminho. Mesmo tropeçando e soando pedante em algumas poucas passagens, o que acaba atrapalhando o ritmo do trabalho, Nancy reúne elementos que acabam tornando Alguém tem que Ceder um daqueles deliciosos e despretensiosos filmes que vão parar naquela lista de títulos obrigatórios de se ver, mesmo que de vez em quando. | Domingo, Abril 17, 2005
(Being Julia, 2004, de István Szabó) Um dos grandes exercícios que o cinema oferece é permitir que um mesmo filme tenha diferentes significados para diferentes pontos. Adorável Julia, por exemplo. Para István Szabó não representa mais que Mephisto, protagonizado por Klaus Maria Brandauer. Já para Annette Benning, é o topo, o que não é pouca coisa para quem já encarnou com primor a neurótica Carolyn Burnham de Beleza Americana. Não que o trabalho do diretor húngaro não tenha seu valor. Vê-se que há um certo cuidado com os elementos de cena, a recriação de época, fotografia e direção, além do texto de Ronald Harwood, ainda que caia num elemento narrativo que pouco ajuda. Mas Adorável Julia é Annette Benning. Com sutileza e controle, ela vai da gargalhada ao choro como quem coça os olhos. Chega a confundir o espectador com sua capacidade de alternar personalidades. E quem não se deliciar com o show da atriz na cena crucial certamente precisa rever seus conceitos. Adorável Annette. | Sábado, Abril 16, 2005
ANTES DO PÔR-DO-SOL (Before Sunset, 2004, Richard Linklater) Toda a exaltação com o novo trabalho de Richard Linklater nos faz viajar no tempo e voltar ao ano de 1994. Naquela época, o diretor começava a conquistar respeito com sua carreira artística após duas empreitadas no cinema independente, impulsionado com o sucesso da participação de Jovens, Loucos e Rebeldes no Festival de Locarno. Após um acontecimento vivido por ele mesmo que virou idéia para um novo trabalho, Linklater convidou Ethan Hawke, um aspirante a ator que tinha feito um importante papel coadjuvante no badalado Sociedade dos Poetas Mortos e conseguido protagonizar o hit Vivos, e a francesa Julie Delpy, que saía da tutela de Krzysztof Kieslowski após participar dos três capítulos da Trilogia das Cores, para embarcar para a Europa onde filmariam um romance, gênero ainda desconhecido para os estreantes. A premissa básica era a de que dois jovens, que tinham acabado de se encontrar a bordo de um trem, fariam uma parada na cidade de Viena, onde teriam apenas um dia para se conhecer e aprofundar o recente relacionamento. Mesmo com um prêmio de direção no Festival de Berlim, Antes do Amanhecer ficou restrito ao circuito independente. No entanto, toda a beleza e simplicidade com o qual o diretor e roteirista tratou o tema, os diálogos críveis e encantadores combinados com a expressividade intensa dos protagonistas, e embalados pela paisagem da cidade austríaca acabou por tornar o filme uma pequena jóia que aos poucos passou a ser descoberta, principalmente com seu lançamento em vídeo e com apoio em massa dos cinéfilos. O final em aberto e o interesse dos atores em retornar aos seus papéis permitiram com que Linklater reunisse a equipe novamente em 2003 para filmar a continuação. Reunidos em Paris, fizeram a seis mãos o roteiro e ainda nesse ínterim concluíram as filmagens. O processo rápido, pouco comum no cinema, não atrapalhou o desenvolvimento do projeto. Pelo contrário. O que se vê na tela é uma naturalidade espantosa como poucas vezes se viu no cinema, o que torna o reencontro de Celine e Jesse ainda mais convincente. Antes do Pôr-do-Sol começa de forma exatamente contrária ao seu antecessor. Se no primeiro filme o final era melancólico e saudosista ao mostrar os locais por onde os personagens estiveram, mostrando inclusive a interferência deles - como a garrafa de vinho e as taças no jardim - a continuação começa com as imagens de onde os protagonistas irão se encontrar, como se o diretor estivesse fazendo um prenúncio do que está por acontecer, deixando a empolgação tomar conta de quem está sentado do lado de cá da tela. Dessa forma, torna-se muito mais intenso o passeio que a câmera de Linklater faz pela capital francesa. A facilidade com a qual o trio recompõe a história chega a ser inacreditável. Em apenas 15 minutos, Jesse e Celine retornam a amizade e o sentimento que nutriam um pelo outro, sem deixar de mostrar que ainda existe um certo pudor entre os dois. A tentativa de situar os acontecimentos acontece de forma rápida e eficaz e a linguagem entre os dois muda, já que o tempo faz dos protagonistas mais maduros e menos sonhadores, ou pelo menos mais preocupados em mostrar-se dessa maneira. Toda essa excelência que Antes do Pôr-do-Sol exibe não só justifica seu surgimento, como faz o primeiro filme crescer muito. É uma espécie de "volume 2" feito num intervalo de 10 anos. Mas bem na hora certa. Just in time. | Domingo, Abril 10, 2005
SIN CITY (Sin City, 2005, Robert Rodriguez e Frank Milller) Nos últimos anos virou moda em Hollywood: a temporada de verão, que costuma pagar todo o restante das produções do ano, começa com um blockbuster inspirado em gibis, feito sob medida para arrastar milhões aos cinemas. Mas dessa vez os produtores foram um pouco mais além e acertaram ao adaptar a cultuada série Sin City. Criada nos anos 90 por Frank Miller, a trama dispensa super-heróis e mocinhos intrépidos e ambiente sua ação numa cidade cheia de maus exemplos. Por ela desfilam policiais corruptos, gangsteres e prostitutas armadas até o dente, além de temas que passam longe de serem tratados com benevolência, como a política e a religião. Em três segmentos diferentes que estão sempre entrelaçados, a história mostra-se interessante não só como puro entretenimento, aquele que é o principal atrativo das massas, mas também como incentivo aos cinéfilos mais exigentes, contando com um texto ágil e quase sempre em off. O filme ganhou corpo basicamente através de seu criador, que não só observou tudo de perto, como participou de cada pequena decisão, sendo responsável direto pelo roteiro e dividindo a direção com o Robert Rodriguez, o outro autor da obra, que também ficou a cargo da trilha sonora, edição e fotografia. Esta última, por sinal, revela-se uma das grandes marcas do trabalho, deixando o longa com um aspecto de um grande storyboard. Mas, além disso, se todo o clima de um filme noir está presente, certamente é por contar com um elenco de medalhões, que reunidos com a turma jovem que acabou de aterrissar na terra do cinema, dá conta do recado. Bruce Willis, Michael Madsen, Rosário Dawson, Mickey Rourke, Jessica Alba, Hutger Hauer, Elijah Wood, Benicio Del Toro, Michael Clark Duncan, Nick Stahl e Clive Owen são alguns que contribuem com atuações viscerais, no sentido literal, e fazem parte do longo time que compõe a banda podre e a banda podre da cidade. Afinal, em Sin City não há meio termo e no final sempre haverá sangue derramado. | Sábado, Abril 09, 2005
SÉRIE EPÍLOGOS "Durante nossas vidas, todos enfrentamos decisões penosas, escolhas morais... Algumas delas têm grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos através das escolhas que fazemos. Na verdade, somos feitos da soma total de nossas escolhas. Tudo se dá de forma tão imprevisível, tão injusta. É como se a felicidade humana não tivesse sido incluída nos desígnios da criação. Somos nós, apenas com nossa capacidade de amar, que atribuímos sentido ao universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando e até de encontrar prazer em coisas simples como a sua família, seu trabalho, na esperança de que as gerações futuras alcancem uma compreensão maior". Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, EUA, 1989) de Woody Allen | Sexta-feira, Abril 08, 2005
(Robots, 2005, de Chris Wedge) Chega a ser inacreditável o trabalho dos responsáveis pelas animações dos últimos anos: mesmo utilizando as mesmas fórmulas em praticamente todos os trabalhos, eles conseguem manter um frescor e uma sensação de inovação inerente a cada empreitada. Se eles não conseguem se superar a cada novo filme, pelo menos sempre entregam um produto de primeira. Tudo isso se repete em Robôs, novo filme dos estúdios Fox em parceria com a Blue Sky. Transportados para o universo onde tudo é feito de lata, o espectador que deixa se levar pela história - batida, clichê e piegas - certamente vai se encantar com mais um "filme para crianças" onde os adultos se divertem muito mais. Além disso, vai poder constatar que Robin Williams, depois de amargar diversos fracassos, encontrou seu caminho: as dublagens. | Segunda-feira, Abril 04, 2005
MAR ADENTRO Mar Adentro, 2004, Alejandro Amenábar Depois do hit sobrenatural Os Outros, grande sucesso hollywoodiano de 2001, o diretor espanhol Alejandro Amenábar voltou-se para os dramas intimistas com o qual iniciou sua carreira, buscando na história verídica de Ramón Sampedro, tetraplégico que buscou na justiça o direito de morrer, dar um passo maior do que aquele oferecido durante seu primeiro contato com a Meca do cinema. Construído em cima de um tema delicado e sempre difícil de ser retratado, Amenábar montou seu trabalho com inteligência e simplicidade, passeando por situações comuns ao gênero, mas dando sempre um sopro de inventividade às suas composições, aliando sentimentalismo à excelência cinematográfica, como fica provado na cena em que o protagonista relembra seu acidente, feita com maestria através do recurso da metalinguagem. Aliado a isso, o diretor escalou para o papel central aquele que é considerado o maior ator hispânico de sua geração, Javier Bardem, e esse certamente foi seu maior trunfo. Com um personagem sempre preso à cama ou à cadeira de rodas, Bardem só contou com as expressões faciais para demonstrar todo o sofrimento vivido pelo protagonista, e Amenábar captou isso com muitos closes e pouquíssimos planos longínquos. Abusando da trilha sonora tocante, comum a todos seus trabalhos, o diretor condensou em pouco mais de 110 minutos de filme todos os obstáculos percorridos por Ramón, como a queda de braços com a justiça e a Igreja Católica, o embate com a família e o apoio daqueles que como ele, só desejavam que o direito de escolha entre a vida e a morte fosse permitido. Coroado ao redor do mundo, Mar Adentro colheu os louros no Festival de Veneza, no Globo de Ouro e no Oscar 2005, provando que o bom cinema ainda se é feito com boa dose de ingenuidade sem descuidar de nenhuma etapa de seu processo construtivo. | Domingo, Abril 03, 2005
(South Park: Bigger, Longer and Uncut, 1999, de Trey Park) Fã declarado da série de tv, encarei uma sessão de South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes como dever (atrasado) de cinéfilo e fase de preparação para Team América: Detonando o Mundo, mas confesso que a experiência não chegou perto do que era esperado. Na primeira incursão dos diretores Trey Parker e Matt Stone nas telonas, South Park se transformar em um grande musical, daqueles bem comuns à Disney: músicas, muitas músicas, final feliz e moralista. Claro que há muitas piadas escatológicas, politicamente incorretas e abusadas, típicas da dupla. E é bem lógico que tudo isso não passe de uma boa dose de ironia. Mas é impossível negar que eles bebem na mesma fonte do famoso estúdio de animações. | Sexta-feira, Abril 01, 2005
CAZUZA - O TEMPO NÃO PÁRA idem, 2004, Sandra Werneck e Walter Carvalho Cazuza - O Tempo Não Pára, filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho - este em sua primeira incursão fictícia como diretor - pode ser considerado uma grande homenagem a um dos maiores poetas da música brasileira, tamanho seu caráter quase documental ao abordar, principalmente, a carreira artística do cantor. Em pouco mais de uma hora e meia de duração, Sandra e Walter são responsáveis por trazer de volta todo o brilhantismo de um jovem inquieto, com ânsia de conquista, que só pôde ser parado por uma fatalidade. Em seus vários momentos musicais, o filme mescla cenas reais do cantor com closes no ator Daniel de Oliveira, dando uma incrível verossimilhança nas apresentações de palco. O protagonista tem um domínio tão grande de cena que chega a se questionar quem é que aparece na tela. Com uma atuação arrebatadora, marcada por gestos e trejeitos idênticos à do cantor, Daniel chega a soltar a voz logo no primeiro número musical, em "Smoke on the Water", como se estivesse sendo apresentado para o público - e não faz feio. Quando abatido pela doença, fato que toma praticamente todo o terço final do filme, o ator passa por uma transformação visceral e dolorosa, e acompanhando seu protagonista, a produção muda completamente seu panorama, se concentrando no drama vivido por Cazuza. O filme ainda conta um elenco de apoio grandioso, muito bem em cena, como os jovens atores que formam o Barão Vermelho, e os pais do cantor, vividos por Reginaldo Faria e Marieta Severo - esta principalmente, que de forma doce e forte, faz de Lucinha Araújo uma figura importante e presente nos momentos mais difíceis e problemáticos da vida do filho. Há ainda uma bem sucedida tentativa de inserir o filme no contexto da década de 80, inclusive no plano político, onde são feitas algumas citações, como o atentado no Rio-Centro, o fim da ditadura militar e a morte do presidente Tancredo Neves; além de mostrar a juventude esculachada, drogada e bêbada na qual Cazuza representou durante essa década. No entanto, ao exibir fatos em demasia o filme acaba apresentando algumas falhas, como os cortes bruscos que sofre em sua primeira parte, que explica o não mencionamento de alguns personagens presentes em cena, necessitando o espectador de um conhecimento maior acerca dos acontecimentos - Bebel Gilberto, por exemplo, que foi uma das mais importantes figuras na vida do cantor, e que no filme é vivida pela atriz Leandra Leal, só é reconhecida no momento em que Cazuza, Dé e ela estão compondo "Eu Preciso Dizer Que Te Amo". Cazuza - O Tempo Não Pára, não é uma aula de cinema, nem a obra-prima que o cinema brasileiro parece tanto necessitar desde que Cidade de Deus surgiu. Mas cumpre tão bem o que se propõe que quando os créditos sobem a vontade é ir até à bilheteria, pagar um novo ingresso, voltar para dentro da sala e cantar bem alto todos os ótimos momentos que o filme tem, principalmente o show da música que leva o nome do filme, o ponto alto da produção. Simplesmente inesquecível. | |
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