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Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema TOP 10 - 2007 TOP 10 - 2006 TOP 10 - 2005 TOP 10 - 2004 SITES E BLOGS HISTÓRICO
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Sábado, Maio 28, 2005
EFEITO BORBOLETA (The Butterfly Effect, 2004, de Eric Bress e J. Mackye Gruber) O tempo é implacável. E no cinema, cada autor tentou mostrar isso de uma forma. Gaspar Noé chocou platéias com o estupro de Monica Bellucci em Irreversível; Charlie Kauffman deu aula com o desdobramento de temas em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Os dois são o mais próximo que se pode chegar ao chamado cinema de qualidade, o cult, destinados para pouca gente. Na contramão destes trabalhos vem Efeito Borboleta. Mantendo a temática séria, mas fazendo concessões, o filme atinge em cheio o público do cinemão, que normalmente busca apenas se embrenhar na sala escura em busca de algumas horas de pura diversão. Para isso, os diretores Eric Bress e J. Mackye Gruber seguiram a cartilha e chegaram bem próximo de construir um trabalho intrigante. Ao retratar o drama de um jovem com problemas psiquiátricos que consegue, através de suas lembranças, retornar ao passado e mudar os acontecimentos, o filme deixa claro que não há interesse em aprofundar fatos e buscar respostas, apesar de tratar o tema com respeito, sem abusar da inteligência do espectador. Além disso, a presença de alguns dos mais conhecidos astros teens americanos, como Ashton Kutcher, William Lee Scott e Amy Smart, só reafirma a posição do filme ante os outros do gênero - e a escolha deles só é justificada pela tentativa de atrair público, já que pouco contribuem para a construção de personagens interessantes. Dessa forma, cabe ao espectador mais interessado "completar" a linha de raciocínio que nunca chega a ser concluída como merecia. Alguns ganchos incríveis são deixados para trás, como a discussão sobre até que ponto o destino age no decorrer da vida de cada um de nós e são realmente as pessoas que constroem seus caminhos. No final, fica a sensação de que faltou alguma coisa, ainda que o filme tenha deixado sua marca por onde tem passado - e uma continuação caça-níquel já esteja prevista para 2007. | Quinta-feira, Maio 26, 2005
(idem, 2004, de Roberto Moreira) Por onde passou, Contra Todos deixou a marca de melhor filme brasileiro de 2004. Foi assim em Trieste, Hong Kong, Rio de Janeiro e Pernambuco. No entanto, o primeiro trabalho do diretor e roteirista Roberto Moreira peca pela tamanha irregularidade ao longo de seus 90 minutos. O filme tem uma trama boa que se constrói em cima de uma família paulistana que enfrenta problemas comuns - rebeldia da filha, traição do casal -, mas não mantém o clima de apreensão durante a maior parte de sua projeção, chegando a ter momentos que beiram o ridículo, e só consegue dar aquele gostinho de que realmente vale a pena depois dos seus 20 minutos finais, que são extremamente bem montados e interessantes. Mas pra ser considerado filhote de Cidade de Deus precisava ser bem mais que isso. | Domingo, Maio 22, 2005
FIM DE CASO (The End of the Affair, 1999, Neil Jordan) - O amor não termina só por que não o vemos. - Não? - As pessoas amam a Deus a vida toda sem vê-Lo. - Não é o meu tipo de amor. - Talvez não haja outro tipo. | Sábado, Maio 21, 2005
- ENCERRAMENTO - L'Enfant narra a vida de um jovem que sobrevive cometendo pequenos roubos, de sua namorada e de seu filho. Essa foi a segunda vez que os belgas levaram o prêmio principal do festival, já que em 1999 eles saíram consagrados com Rosetta. A grande surpresa da premiação foi The Three Burials of Melquiades Estrada, exibido ontem, que inicialmente foi pouco comentado e posteriormente aclamado, que ficou com os prêmios de melhor roteiro (Guillermo Arriaga, de 21 Gramas e Amores Brutos) e melhor ator para o protagonista de diretor do filme Tommy Lee Jones. O prêmio de interpretação feminina foi para Hanna Laslo, do filme de Amos Gitai, Free Zone, desbancando as favoritas Juliette Binoche e Natalie Portman. Xangai Dreams obteve o Prêmio do Júri e o Câmera d'Or foi divido entre Vimukthi Jayasundara e Miranda July por Sulanga Enu Pinisa e Me And You And Everyone We Know, respectivamente. Dois prêmios entregues pelo Ministério da Cultura de França foram destinados ao cinema brasileiro. O diretor Marcelo Gomes, com seu trabalho Cinema, Aspirinas e Urubus, recebeu o Prêmio Nacional de Educação, destinado a filmes que contribuem e servem como meios para a difusão ao ensino, que nos anos anteriores ficou com A Vida é um Milagre, de Emir Kusturica, e Elefante, de Gus Van Sant. Já Cidade Baixa, de Sérgio Machado, recebeu o prêmio da 24ª edição do Prêmio da Juventude, um júri composto por nove jovens cinéfilos. ***
Cromophobia, filme da diretora Martha Fiennes, uma filme recheado de suspense sobre uma rica família inglesa, fechou a 58ª edição do festival. Acompanhado do irmão Ralph Fiennes, que protagoniza o filme, e dos demais atores do elenco, Penélope Cruz, Kristin Scott Thomas, Damian Lewis, Ben Chaplin e Rhys Ifans, a diretora afirmou que quis fazer uma crônica da cidade de Londres, utilizando um dos alicerces da sociedade inglesa. Sexta-feira, Maio 20, 2005
- 10° DIA - Sem nenhum grande nome no último dia de competição oficial, Cannes terminou a exibição dos filmes concorrentes à Palma de Ouro de forma cansativa e arrastada. O taiunês Three Times, do chinês Hou Hsiao Hsien, despertou certo interesse do público e crítica, ao contar com lirismo e simplicidade três histórias românticas, passadas em três épocas diferentes. Já o filme sul-coreano Keuk Jang Jeon (Tale of Cinema), de Jong Sansoo, despertou pouco interesse e críticas negativas de quem o viu. Ao contrário do ano passado, quando os filmes orientais foram celebrados pela estética apurada e histórias interessantes, que trouxe os comentados Old Boy e Nobody Knows, este ano o cinema de lá despertou pouquíssimo interesse na crítica. O fato da edição desse ano contar com grandes nomes em disputa talvez explique um pouco o descaso, mas é certo que a safra não manteve a mesma qualidade. O penúltimo dia em Cannes já serviu para mostrar que rumos a premiação oficial deve seguir. O trabalho do diretor Michael Haneke, Caché, recebeu o FIPRESCI e o Prêmio do Júri Ecumênico, dando um salto na frente dos demais concorrentes. As listas publicadas pelas revistas e jornais especializados mostram que há pelo menos cinco grandes favoritos à Palma: além do filme de Haneke, o trabalho dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, do americano Jim Jarmusch, do canadense David Cronenberg e do alemão Wim Wenders estariam mais 'credenciados' aos prêmios. Mas é bom não esquecer dos burburinhos causados pelo mexicano Batalla en el Ciello, o americano Last Days e Manderley, de Las Von Trier. A disputa entre roteiristas e diretores é ainda mais acirrada, e entre os atores, Juliette Binoche e Sam Shepard aparecem como favoritos. Outras comissões também divulgaram os seus vencedores. A 'Quinzena dos Realizadores', que no passado já exibiu títulos de gente como Martin Scorsese e Stephen Frears, premiou o francês La Moustache e o inglês Sisters in Law. Na 'Un Certain Regard', na qual concorriam os dois títulos brasileiros, o prêmio foi para o romeno Mortea Domnului Lazarescu (A Morte do Senhor Lazarescu), do cineasta Cristi Puiu, um dos filmes mais elogiados dentre todos exibidos neste ano; e a 'Cinéfondation' premiou o curta-metragem americano Buy It Now, de Antonio Campos. | - 9° DIA - No filme, Sam encarna Howard Spence, um ator que decide abandonar a carreira e partir em busca de outros caminhos, retornando para a casa da mãe e relembrando tudo que deixou para trás. O filme ainda conta com "atuações precisas de Jéssica Lange, Fairuza Balk, Sarah Polley e Gabriel Mann". Já o cineasta israelense Amos Gitai apresentou nesta quinta-feira em Cannes o seu novo filme, Free Zone. Filmado em um país árabe, o filme conta a história de três mulheres: uma jovem americana, filha de pai judeu; uma motorista de táxi de e uma mulher palestina, que precisam ir até a Zona Livre, uma espécie de zona franca no leste da Jordânia, para recuperar um dinheiro de uma dívida. Com esse pano de fundo, o diretor constrói mais um drama político, salientando as diferenças entre árabes, egípcios, israelenses e jordanianos que convivem diariamente na região. Natalie Portman, que nasceu em Israel, protagoniza o filme do diretor, mas não esteve presente na sessão oficial. | Quarta-feira, Maio 18, 2005
- 8° DIA - Sin City, a audaciosa adaptação dos quadrinhos de Frank Miller, por Robert Rodriguez, teve o efeito contrário do último episódio de Star Wars: elogiado nos EUA e recebido com frieza pela crítica européia. Apesar de construir um belo trabalho, fiel à estética das HQs e com interessante técnicas cinematográficas, como a ótima fotografia e o roteiro pouco convencional, Rodriguez não convenceu os jornalistas da sessão, que estava cheia de grandes nomes, como Mickey Rourke, Jessica Alba, Brittany Murphy, Benicio del Toro, Clive Owen e Michael Madsen, que estiveram na exibição oficial para promover o filme. A quarta-feira também ficou marcada pela exibição do documentário Pelé Eterno, no Cinéma de la Plage. O rei do futebol estava presente na sessão, junto do Ministro da Cultura Gilberto Gil, que foi prestigiar os dois filmes brasileiros exibidos na mostra paralela, além de tentar fechar um contrato de parceria entre o cinema francês e o nacional. | - 7° DIA - Parece que desta vez a organização do Festival de Cannes acertou: depois de anos em que se criticou duramente as escolhas dos filmes exibidos na competição oficial, a mostra desse ano tem levado crítica e público ao delírio. Depois da passagem de alguns diretores renomados, como Michael Haneke e Lars Von Trier, nessa terça foi a vez de Jim Jarmush e os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne saírem aclamados. O representante belga, L'Enfant, é o terceiro trabalho dos irmãos que já levaram a Palma de Ouro com Rosetta, e dessa vez exibiram um filme "tocante, que mostra a vida de um jovem ingênuo que ganha a vida cometendo pequenos furtos e de sua namorada e seu pequeno filho". Caracterizado como "sutil e feito com emoção", o filme é mais um que entra na lista de prováveis vencedores, que a cada novo título exibido só cresce. Fora de competição, o destaque ficou por conta da exibição dos clássicos Los Olvidados, de 1950, de Luis Buñuel; e Juventude Transviada, com James Dean. O jovem ator, que fez 50 anos de falecido neste ano, ganhou uma retrospectiva especial no Festival, além da exibição de um documentário inédito, que começou a ser filmado um ano depois de sua morte, reunindo depoimentos de amigos e familiares. O diretor Michael Sheridan, que na época do início da produção tinha apenas 17 anos, coletou imagens de família e aparições especiais do ator em programas de tv. James Dean: Forever Young, foi um dos filmes mais negociados no Festival de deve desembarcar em breve ao redor do mundo. Para o cinema brasileiro as notícias também são bastante animadoras. Mesmo exibido à exaustão, o longa Cidade Baixa arrancou elogios por onde passou, arrancando lágrimas da atriz Alice Braga, sempre presente às exibições. O outro filme brasileiro exibido hoje, Cinema, Aspirinas e Urubus, também não deixou por menos. Com uma história inventiva e pouco comum ao cinema nacional, o filme parece dar fôlego à nossa produção, "fugindo do lugar comum em que o nosso cinema parecia ter caído". O filme se passa durante a década de 40, e mostra um alemão que foge dos embates da Segunda Guerra Mundial e encontra um retirante nordestino que está fugindo da seca. Ambos os filmes estão em disputa pelo Câmera d'Or, já que são trabalhos de estréias dos diretores, e têm em comum o fato de serem escritos pelo mesmo roteiristas, Karim Ainouz, diretor de Madame Satã, exibido em Cannes em 2002. | Segunda-feira, Maio 16, 2005
- 6° DIA - O estardalhaço que Dogville causou em 2003, fazendo parte da competição oficial, ecoou neste ano com a exibição de sua continuação, Manderley. Mantendo o mesmo rigor visual de seu antecessor, bem como a acidez de seu tema, que dessa vez retrata basicamente a escravidão negra nos EUA, o novo trabalho do diretor dinamarquês Lars Von Trier foi novamente aceito como "um impressionante exercício cinematográfico", apesar de algumas poucas restrições ao fato de manter a estrutura teatralizada que sustentava a premissa do primeiro filme. Acompanhado dos atores Bryce Dallas Howard, Willem Dafoe e Danny Glover, o diretor, que já venceu duas vezes a Palma de Ouro (com Ondas do Destino e Dançando no Escuro), fez questão de responder a todas as perguntas dos jornalistas, curiosos para descobrir o porquê dele ter construído uma trilogia sobre um país na qual nunca visitou. Segundo Trier, a idéia surgiu por que "sou 60% americano, embora nunca tenha estado lá, visto que o meu país e a minha vida são influenciados pelo controle americano", e acrescentou dizendo que "Os Estados Unidos dominam o mundo, estamos sob sua má influência. Eu não posso mudar nada lá, não voto nos Estados Unidos. Só posso fazer filmes". Mas se em 2003 Dogville não encontrou obstáculos durante sua passagem - o filme foi exibido no mesmo dia que o nosso Carandiru - dessa vez o fato foi diferente. O outro título em competição, A History of Violence (que no Brasil recebeu a fraca tradução de O Anjo da Morte), do canadense David Cronenberg, atraiu tanta atenção quando o representante nórdico. Também voltado para a abordagem da violência da sociedade americana, dessa vez a contemporânea, Cronenberg utiliza uma boa dose de ironia ao construir um grande western, gênero 100% americano, impregnado de cinismo. Protagonizado por Viggo Mortensen, William Hurt e Maria Bello, o drama psicológico arrancou aplausos calorosos da crítica que encarou este trabalho como "o mais comercial de Cronenberg, desde A Mosca". Fora de competição, na mostra 'Un Certain Regard', quem chamou a atenção foi o brasileiro Cidade Baixa, de Sérgio Machado. Bastante aplaudido ao fim de sua sessão, o filme é a estréia do diretor em longas-metragens, tem um trio inspirado (Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga - foto), e é centrado na história de um triângulo amoroso entre dois amigos de infância e uma prostituta.
Ainda nessa mesma mostra, o renomado diretor François Ozon, de Swimming Pool, 5 x 2 e 8 Mulheres, que vem sendo chamado de "o Woody Allen francês", devido ao fato de lançar pelo menos um filme por ano, exibiu o esperado Le Temps qui Reste, que foi recebido com pouco entusiasmo pelos presentes. Domingo, Maio 15, 2005
- 5° DIA - Como não poderia deixar de ser, quem tomou conta do domingo foi George Lucas e o time de Star Wars. E como se eles ainda precisassem, contaram com um grande incentivo da organização do Festival, que fizeram uma série de eventos extras, como a exibição do Guerra nas Estrelas original, no Cinéma de la Plage, e a entrega de um troféu especial pelo conjunto da obra ao diretor, que esteve pela primeira vez em Cannes em 1971, para apresentar THX 1138.
Apresentado fora de competição, Star Wars: Episódio III - A Vingança do Sith reúne o mesmo elenco dos dois filmes anteriores para pôr um ponto final na saga. Nesse capítulo, a guerra entre os cavaleiros Jedis e o Senador Palpatine atinge dimensões maiores e Anakin Skywalker, atraído pela promessa de poderes sem precedentes, passa para "o lado negro da Força", jurando submissão a Darth Sidious e se tornando Darth Vader.
ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in Translation, 2003, Sofia Coppola) Bob Harris é um homem de meia-idade e está em crise. Com ele o tempo foi implacável, dilacerando seu casamento e sua profissão. Se outrora ele era um ator de sucesso e respeitado, agora só consegue estrelar comerciais multimilionários. Charlotte tem metade da idade de Bob, mas nem por isso deixa de passar por maus momentos. Acompanhando o marido em viagem de trabalho, ela não sabe que rumo seguir na vida e vê que sua decisão é urgente e necessária. Colocando os personagens americanos de sua trama na cidade de Tóquio, Sofia Coppola fez o que se costuma rotular de "comédia de costumes". Ela percorre todos os caminhos para mostrar a inadaptabilidade de duas pessoas que estão muito longe de casa, ressaltando as diferenças de língua e a dificuldade de se expressar, as características locais e as barreiras que o desconhecido impõe aos recém-chegados. Na tela, esses momentos resultam em grandes cenas, impulsionados pela própria experiência da diretora, que viveu alguns anos na terra do sol nascente. E isso já bastava pra tornar seu segundo trabalho tão marcante como o anterior. Mas em meio ao colorido dos painéis publicitários e dos gigantescos prédios acinzentados, numa cidade fria, onde 20 milhões de pessoas circulam apressadas por entre os automóveis, Sofia guia seus protagonistas numa jornada única, fazendo surgir entre os dois um sentimento puro e inocente. A partir daí, aquela cidade inóspita que inicialmente era a responsável pelo crescimento de uma trajetória sem perspectiva, se transforma em palco do culto à vida e bem-estar mútuo. Vividos com maestria por Bill Murray e Scarlett Johansson, Bob e Charlotte não são personagens fáceis de se captar na sua essência, mas ainda assim a diretora e roteirista o faz. O entendimento que surge entre os dois personagens chega a níveis raramente alcançáveis, explicitados através de diálogos incrivelmente verossímeis e simples, mas também graças à utilização de todos os aspectos visuais que se pode ter: o silêncio, o som, o movimento, o gestual e os olhares. O cuidado que a diretora, roteirista e produtora teve em cada pequeno detalhe põe Encontros e Desencontros em um patamar que poucos filmes chegaram nos últimos anos. Ela só escorrega no início, quando constrói planos curtíssimos, com muitos cortes, que se torna cansativo e que inclusive atrapalha o andamento da excelente trilha sonora, que sofre com a falta de seqüência. Mas ainda assim é muito pouco perto de todo o resto. E já no fim, quando Just Like Honey começar a tocar, dificilmente alguém se lembrará disso quando sentir o coração apertado e aquele arrepio de ter acabado de presenciar algo inesquecível. | Sábado, Maio 14, 2005
- 4° DIA - Em Cannes, cada filme em competição é mostrado pelo menos duas vezes no dia oficial de sua sessão, além de continuar sendo exibido até o último dia, quando é feita uma retrospectiva completa dos filmes em disputa. Isso faz com que mais gente tenha acesso ao conteúdo de cada representante, gerando, muitas vezes, comentários díspares daqueles que foram inicialmente divulgados. É o que aconteceu com Last Days, de Gus Van Sant. Em menos de 24 horas o filme foi alçado de "perdido" à "obra-prima", fazendo crescer a expectativa em torno de uma possível premiação, mesmo que o diretor Emir Kusturica, que disse estar conduzindo com mãos firmes os membros do júri oficial, não esteja preocupado em saber o atual status da bolsa de aposta. Em 2001, Haneke levou o Grande Prêmio do Júri com A Pianista, que deu aos atores Benoit Magimel e Isabelle Huppert os troféus de melhor ator e atriz. O outro filme em disputa do dia foi o coreano Election, de Johnnie To. Usando como pano de fundo uma Hong Kong tomada pela máfia, o diretor mostrou "um panorama cruel da sociedade atual" do país. O filme acabou não despertando tanto interesse quanto o trabalho anterior de To, Breaking News, exibido fora de competição no ano passado. Também fora de competição, dois filmes americanos chamaram mais a atenção pelo elenco que levaram para o festival do que pelo conteúdo. Em Kiss Kiss, Bang Bang, Shane Black dirige Val Kilmer, Robert Downey Jr e Michelle Monaghan, e fez questão que os três estivessem presentes durante a maratona diária, posando para muitas fotos. Quem também chamou a atenção foram Edward Norton e Evan Rachel Wood, que exibiram seu mais recente trabalho, Down in the Valley, na seção 'Un Certain Regard'. | Sexta-feira, Maio 13, 2005
- 3° DIA - O terceiro dia de Festival já exibe em plenitude um dos grandes charmes do evento, que deixa a mídia e os cinéfilos em polvorosa: os astros. A grande maioria está lá para impulsionar os filmes aos quais estão presentes, mas ainda há uma boa parcela dos que buscam exclusivamente sua própria promoção. O que também foi destaque neste terceiro dia foram os filmes exibidos dentro da competição oficial. Where the Truth Lies, do egípcio radicado no Canadá, Atom Egoyan, foi o mais comentado do dia, ofuscando a passagem de Gus Van Sant, vencedor em 2003. Em seu novo trabalho, o diretor que em 1997 venceu o Grande Prêmio do Júri com O Doce Amanhã, promove um passeio pela vida de dois comediantes populares americanos que se tornam suspeitos de um assassinato e passam a ser investigados por uma jornalista. A história, fictícia, foi inspirada no romance de Rupert Holmes, e é protagonizada pelos atores Colin Firth e Kevin Bacon, que tiveram que defender as cenas de sexo e nudez da obra. Já o diretor de Elefante, que chegou na Riviera em companhia dos atores Michael Pitt, Asia Argento e Lukas Haas, viu seu novo filme ser recebido com frieza pela crítica - assim como o vencedor da Palma de Ouro foi, há dois. Com Last Days, Van Sant permanece na temática da autodestruição, que permeava seu outro trabalho, ao mostrar as últimas horas da vida de um astro da música. Inspirado na carreira de Kurt Cobain, líder do Nirvana, o trabalho foi considerado uma "tentativa fracassada, lenta e pretensiosa". | - 2° DIA - Todo ano Cannes é um prato cheio para os produtores. Aproveitando-se do fato de que a cidade se torna o centro do cinema mundial e todo o mundo está de olho no que está acontecendo por lá, eles também fazem as malas e se mudam pra Riviera durante os 10 dias de festival. Afinal, o lucro é parte importante do processo. Nos últimos anos, filmes como O Pianista, Cidade de Deus e Elefante, que antes de suas exibições no festival não tinham grandes perspectivas, saíram de lá com os bolsos cheios. Mas o que pouca gente sabe é que filmes que sequer entraram em processo de pré-produção também entram na jogada. A StudioCanal, por exemplo, já está negociando o novo filme de David Lynch, Inland Empire, que só deve chegar aos cinemas no final de 2006. A Dreamworks, que ainda nem lançou o último trabalho de Steven Spielberg, Guerra dos Mundos, já exibe cartazes de Vengeance, a próxima incursão do diretor nas telonas. O Mercado de Cannes, como é a conhecida a seção do Festival dada às novas produções do cinema, contabilizou neste ano cerca de 10% a mais no número de títulos inscritos, totalizando 3.507 filmes vindos de 79 países. Match Point é o primeiro filme do diretor americano que não se passa na cidade de Nova York. Tendo Londres como pano de fundo, Woody construiu uma dramédia sobre o papel do acaso nas relações humanas, utilizando um triângulo amoroso que envolve um professor de tênis, a irmã e a namorada de um de seus alunos, e tem como protagonista a sua nova musa, Scarlett Johansson (foto). | Quarta-feira, Maio 11, 2005
- ABERTURA - O Festival de Cannes, que é considerado o maior dos festivais de cinema de todo o mundo, entrou hoje na sua 58ª edição. Neste ano a Riviera francesa se prepara para receber cerca de 75 novos longas-metragens, além das tradicionais exibições de filmes clássicos e curtas-metragens. O filme francês Lemming, do diretor alemão Dominik Moll fez as honras da casa ao abrir a disputa pela Palma de Ouro, o prêmio máximo da festa. O trabalho, protagonizado pela britânica Charlotte Rampling pela francesa Charlotte Gainsbourg, é um drama familiar que envolve dois casais. Esta foi a segunda passagem do diretor pelo festival.
Neste ano, o presidente do júri oficial (foto) é diretor bósnio Emir Kusturica, que tem a companhia dos diretores Agnès Varda, John Woo, Benoît Jacquot e Fatih Aki; dos atores Nandita Das, Javier Bardem e Salma Hayek, além do escritor Toni Morrison.
Domingo, Maio 08, 2005
DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta, 2004, Walter Salles) Logo depois de se consagrar com Central do Brasil, premiadíssimo filme que abriu as portas para uma carreira internacional, Walter Salles abraçou Diários de Motocicleta, um projeto latino-americano financiado por Robert Redford, que retrata a viagem do jovem Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado pela América do Sul no início da década de 50. Enquanto finalizava Abril Despedaçado, que lhe conferiu ainda mais crédito, o diretor conseguiu total liberdade criativa - desde os produtores até a família de Guevara e Granado, este ainda vivo - para sua equipe tocar a produção, e isso se reflete em cada fotograma exibido. Totalmente falado em espanhol, como não poderia deixar de ser, o filme acerta ao captar a idéia inicial da viagem dos jovens e a forma com que ela transcorreu até seu final. A bordo da La Poderosa, uma motocicleta velha e barulhenta, o plano de Alberto e Ernesto era ir da Argentina até a Venezuela, passando por outros três países do continente sul americano. Despreocupados com o futuro, mas com muita vontade de encontra-lo, os dois passam por momentos únicos e chegam ao destino transformados. O que coloca este trabalho em um outro nível é a naturalidade espantosa em todo o elenco do filme, principalmente nos atores Gael Garcia Bernal e Rodrigo de la Serna, que parecem estar repetindo a experiência da jornada, e isso torna as situações muito verdadeiras aos olhos do espectador. Os dois dividem a tela por quase todo o tempo, não há mais que meia dúzia de cenas em que estejam separados, mas a câmera do diretor Walter Salles faz questão de deixar claro que, assim como os livros De Moto Pela América do Sul - Diário de Viagem, de Ernesto Guevara, e Com Che Pela América Latina, de Alberto Granado, o protagonista é um jovem em formação, que encontra nos olhos dos outros o real sentido da sua existência. Diários de Motocicleta é um forte exemplo de como criar uma obra cinematográfica sem torna-la uma cópia exata do material existente. O roteiro do argentino José Rivera condensa passagens do livros, não deixando que as ações se tornem repetitivas. Nesse aspecto, o trabalho do editor brasileiro Daniel Rezende, indicado ao Oscar por Cidade de Deus, se torna grandioso ao transformar 15 horas de filmagens em um longa de pouco mais de duas horas que mantém uma crescente absurda do início ao fim. Já no final, a aparição de Alberto Granado confirma o caráter verossímil da obra de Salles, atestada também pelas fotos dos jovens durante sua longa caminhada. Embalado pela competente trilha sonora de Gustavo Santaolalla, Diários da Motocicleta termina inserido num contexto maior, o social, fazendo jus ao atual cinema latino-americano e ao homem que lutou por um ideal comum. | Sábado, Maio 07, 2005
HITCHCOCK / TRUFFAUT - ENTREVISTAS* F.T. Gostaria de lhe pedir agora para precisar a distinção que é preciso fazer entre suspense e surpresa. A.H. A diferença entre o suspense e a surpresa é muito simples, e falo dela freqüentemente. Entretanto, muitas vezes há uma confusão, nos filmes, entre estas duas noções. Nós estamos falando, talvez haja uma bomba sob esta mesa e nossa conversa é muito banal, não acontece nada de especial e, de repente: bum, explosão. O público fica surpreso, mas antes que ficasse, nós lhe mostramos uma cena absolutamente comum, desprovida de interesse. Agora, examinemos o suspense. A bomba está sob a mesa e o público sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista coloca-la. O público sabe que a bomba explodirá a uma hora e sabe que faltam quinze para a uma - há um relógio no cenário; a mesma conversa anódina torna-se de repente muito interessante porque o público participa da cena. Tem vontade de dizer aos personagens que estão na tela: "Vocês não deveriam dizer coisas tão banais, há uma bomba sob a mesa e ela vai explodir logo!". No primeiro caso, ofereceu-se ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, oferecemos-lhes quinze minutos de suspense. A conclusão disso é que é preciso informar sempre que se pode, a não ser quando a surpresa é um twist, isto é, quando o inesperado da conclusão constitui o sal da anedota.
* Cortesia de uma amiga que tem me incentivado cada vez mais a conhecer o cinema e achar o meu caminho por aí - na torcida para que ele esteja na sétima arte. | Domingo, Maio 01, 2005
O ROMANCE PROIBIDO O ano era 1948 e Ingrid Bergman era uma das grandes divas do cinema da década de 40, a Era de Ouro de Hollywood. Vinha de quatro indicações ao Oscar em 6 anos, e já tinha levado a estatueta por À Meia-Luz, drama de George Cukor. Tinha sido a loira de Hitchcock por duas vezes (Quando Fala o Coração e Interlúdio) e era amada por todos depois do sucesso de Casablanca. Ao assistir Roma: Cidade Aberta, dirigido por Roberto Rossellini, a atriz ficou impressionado com o realismo do filme e escreveu para o diretor, dizendo que gostaria de trabalhar com ele em um de seus próximos projetos. Dear Mr. Rossellini, I saw your films Open City and Paisan, and enjoyed them very much. If you need a Swedish actress who speaks English very well, who has not forgotten her German, who is not very understandable in French, and who in Italian knows only "ti amo", I am ready to come and make a film with you. Ingrid Bergman Ele respondeu a ela mandando o esboço de uma história. Os dois se encontraram duas vezes, em Paris e Hollywood, e quando começaram a filmar Stromboli, em março de 1949, já estavam apaixonados um pelo outro.
Mas o que era uma paixão secreta se tornou um escândalo internacional. Ingrid ainda era casada com o médico sueco Petter Lindström, com quem tinha uma filha de 10 anos, quando descobriu que estava grávida do cineasta italiano. Ela, que ostentava a imagem de pureza e era considerada uma das mulheres mais bem casadas do cinema, passou a ser vista como pecadora. Para a conservadora sociedade norte-mericana da época, o fato era imperdoável e Ingrid passou por um período amargo, sofrendo duras críticas em milhares de artigos que eram escritos contra ela na imprensa dos EUA. Até mesmo o Senador do Colorado, Edwin C. Johnson, criticou publicamente a atriz, dizendo que ela era "uma poderosa influência do mal". Ainda tentando consertar o erro, separou-se de Lindström, mas foi proibida de ver sua filha, só conseguindo se reencontrar com ela um ano depois, na casa de uma amiga, em Londres. Nesse meio tempo, Ingrid se casou com Rossellini e o filho deles, Roberto, nasceu em fevereiro de 1950. Em 1952, nasceram as gêmeas Isabella (que depois se tornaria a famosa modelo e atriz Isabella Rossellini) e Isotta. Para Rossellini, o romance em nada havia influenciado. Apesar de a princípio o escândalo ter sido considerado um retrocesso em sua carreira, com seus filmes não obtendo sucesso comercial, mais tarde ele foi reconhecido pelos críticos como o mestre do neo-realismo, que veneravam, acima de tudo, Viagem à Itália. Ingrid morou na Itália com seu novo marido até 1957. Durante todo esse tempo, ela só fez filmes com ele: além de Stromboli, que havia sido o único sucesso de público na Itália, onde o produtor Howard Hughes aproveitou o escândalo do casal para promover o filme, ela protagonizou Europa 51, Viagem à Itália, O Medo e Joana d'Arc na Fogueira, além de fazer um episódio de Nós, As Mulheres, também dirigido por Rossellini. Ingrid só voltou a fazer um filme que não fosse de seu marido em 1956, em As Estranhas Coisas de Paris, do francês Jean Renoir.
Em 1957 o casamento terminaria e Ingrid iria embora da Itália com os três filhos. O sucesso do longa Anastácia, produzido pela Fox era tão grande que a sociedade parecia ter esquecido o romance proibido. Ingrid acabou vencendo o Oscar de melhor atriz daquele ano e continuou a fazer seus filmes nos EUA, enquanto Rossellini continuava a encantar com suas obras realistas produzidas na Europa. |
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