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Sábado, Junho 25, 2005
NOTAS DE RODAPÉ - O que era pra ser apenas mais um filme do verão americano acabou atraindo a atenção de muita gente graças ao retorno de Jane Fonda às telas, 15 depois de Stanley e Iris. Mas qualquer outro motivo que possa despertar o interesse do público termina aí. O novo filme da pop star Jennifer Lopez é tão ruim que chega a rivalizar com Gigli. O único sopro vem mesmo de Jane que, como a sogra infernal que tenta a todo custo acabar com o casamento do filho, está tão caricata que até consegue divertir. E só. - Reencarnação (Birth, 2004, de Jonathan Glazer) Um garoto de 10 anos de idade jura para uma mulher que é seu falecido marido, e as coincidências a fazem acreditar em suas palavras. Nicole Kidman assume de vez seu papel de grande atriz da atualidade - a cena da ópera deixa qualquer veterana de queixo caído. Esqueça o título. É apenas uma outra maneira de mostrar alguém que não consegue se libertar do seu passado, resultando num filme interessante, ainda que desorganizado. - Terror em Amityville (The Amityville Horror, 2005, de Andrew Douglas) Ryan Reynolds deixa as comédias adolescentes de lado e embarca na refilmagem do clássico de 1979, que repete todos os clichês de mansão mal-assombradas explorados à exaustão - aqui, uma família se muda para uma casa onde ocorreu um assassinato anos antes e os acontecimentos voltam a se repetir, no que seria 'baseado em uma história real'. Deixando de lado a razão, é possível embarcar no clima e sentir medo. Exigir além é impossível. - Lutero (Luther, 2003, de Eric Till) Drama que cai nos mesmos problemas da maior partes dos filmes históricos: roteiro e direção exageradamente simples. Nesse caso, a polêmica posição do Padre Lutero em relação à doutrina Católica na Alemanha do século XVI, só atrai quem tem interesse maior pelo tema, mesmo colocando nomes de peso no elenco - Ralph Fiennes vive o personagem-título e Alfred Molina e Bruno Ganz tem presenças marcantes. Último trabalho do mestre Peter Ustinov nos cinemas. | Sexta-feira, Junho 24, 2005
(idem, 2005, de Eric Darnell e Tom McGrath) Desde que foram descobertas como um produto rentável para o mercado cinematográfico, as animações percorreram um caminho diferente do convencional, distanciando-se do público infantil e atraindo cada vez mais adultos, com algumas sendo feitas aparentemente para estes - como Os Incríveis - e outras objetivando mesclar seu espectador, com temas mais acessíveis às crianças. Madagascar é mais uma destas. No filme, a ação é centralizada em quatro animais - um leão, uma zebra, um hipopótamo e uma girafa - que após fugirem do zoológico de Manhattan, onde vivem, vão parar na ilha de Madagascar, na África, descobrindo o 'mundo selvagem' que desconheciam dentro dos limites da cidade. Ainda que soe rasa demais - os personagens são rotulados e a história não é nenhuma novidade - o filme ganha ponto ao incluir elementos que só são reconhecidos pelos adultos, e como parece ter virado regra, referências ao cinema e à música são as preferidas - gerando uma piada genial tirada de O Planeta dos Macacos e outra bem ruim de Beleza Americana -, repetindo a sensação deixada por O Espanta Tubarões, de que a Dreamworks, sem Shrek nas mãos, não é uma Pixar. Infelizmente. | Domingo, Junho 19, 2005
(idem, 2005, de Christopher Nolan) Que Hollywood descobriu o poder que uma adaptação de HQ exerce nas bilheterias todo mundo sabe. Mas, definitivamente, os produtores também encontraram a fórmula que garante o sucesso não só de um filme, mas de uma série inteira. É o que prova este Batman Begins. Dirigido por Christopher Nolan - dos medianos Amnésia e Insônia -, o filme explora a história do surgimento do Homem-Morcego, mas nem por isso abandona as cenas de ação. Além do respeito em que o assunto é tratado, sem abusar da inteligência do espectador, dois elementos da obra são propositalmente chamarizes de público: efeitos visuais estarrecedores aliados a uma trilha sonora fantástica (curiosamente feita por dois e não apenas um nome consagrado na Meca do cinema - Hans Zimmer e James Newton Howard) e a lista infindável de astros que vai do protagonista Christian Bale até os ótimos Gary Oldman, Liam Neeson, Tom Wilkison e Morgam Freeman e a mocinha Katie Holmes. Isso sem contar na ótima dose do humor britânico de Michael Caine e o memorável Alfred. Batman Begins empolga a platéia e se torna uma das melhores adaptações de gibi, rivalizando com X-Men 2 e Homem-Aranha 2. Mas nisso tudo, só uma coisa incomoda: saber que o filme não consegue apagar a imagem arranhada deixada pelos últimos filmes anteriores da série. Mas aí já seria exigir demais. | Quinta-feira, Junho 16, 2005
TEAM AMERICA - DETONANDO O MUNDO (Team America: World Police, 2004, de Trey Stone) Há duas formas de se encarar Team America - Detonando o Mundo: a primeira, e mais interessante, é inovação na qual os diretores Trey Park e Matt Stone encontraram para contar a ácida história de uma equipe que combate o terrorismo pelo mundo, utilizando bonecos fantoches em cenários criados com extremo detalhe. Assim como Fuga das Galinhas inovou ao fazer um longa-metragem inteiro em stop motion, com bonecos de massa, Team America levanta a questão das inúmeras possibilidades visuais que o cinema oferece - e os diretores se aproveitam desse fato com seqüências inteligentes e bem-feitas. A segunda, e infelizmente a pior, é o desenvolvimento das idéias que permeiam este trabalho dos diretores, cujo primeiro filme foi o também decepcionante South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes. No filme, a equipe Team America: Polícia Mundial, formada exclusivamente por cidadãos americanos, está pronta para detonar com qualquer asiático que seja uma ameaça à ordem mundial, não importa onde um deles esteja: Paris, Cairo, Coréia do Norte ou Dardekistão. A vontade de estabelecer a paz é tão grande que monumentos históricos como a Torre Eiffel, o Louvre, o Canal do Panamá e as Pirâmides de Gizé vão à baixo, enquanto que nos Estados Unidos, apenas o Monte Rushmore, onde estão esculpidas os retratos de quatro presidentes do país - que por sinal é o QG da obstinada equipe - é explodida. Há um objetivo claro de mostrar a alienação na qual a maioria das pessoas parece estar submetidas, representada pelas cordinhas das marionetes, que estão sempre presentes em cena, bem como as peripécias dos que se mostram contrários às práticas atuais, representados pelas figuras de Michael Moore e dos atores de Hollywood. Mas é justamente nesse ponto que o filme se perde. Ao mostrar os atores que vivem aos gritos contra o governo dos EUA enganados pelo fictício ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, que tem planos de acabar com o planeta, a trama cai numa seqüência sem volta, rendendo aos bonecos de Susan Sarandon, Tim Robbins, Helen Hunt, Samuel L. Jackson, entre outros, mortes das piores formas, como decapitação e explosão, mudando o foco inicial do filme, ainda que um membro da classe artística seja o responsável por salvar o mundo. Isso acaba abrindo espaço para discussões sobre a atuação de atores consagrados (em especial Ben Aflleck e Alec Baldwin), para a recriação de cenas clichês do cinema hollywoodiano - que rende uma seqüência de sexo hilária e outras tantas desconexas -, e os famosos e chatíssimos números musicais. Ao fim, Trey e Matt mostram que são bons mesmo em piadas escatológicas e em boa dose de ironia e sarcasmo, o que não deixa de ser divertido. Mas, dessa vez, o que poderia se tornar uma crítica contundente ao sistema de governo norte-americano, que busca a todo custo perseguir doutrinas e regimes contrários ao seu totalitarismo, com a desculpa de se combater atos terroristas, acabou virando um emaranhado de piadas chulas e de extremo mau gosto. | Sábado, Junho 11, 2005
MELINDA E MELINDA (Melinda and Melinda, 2005, de Woody Allen) Momento de confissão: minha ligação com o cinema se deve a diversos fatos e situações, mas dentro da própria arte um dos nomes que mais me inclinou para essa paixão foi o de Woody Allen e julgar qualquer uma de suas obras é uma tarefa ingrata. Mesmo não mantendo o nível de seus trabalhos da década de 70 e 80, os últimos dez anos reservam uma extensa lista de filmes em que o diretor reafirma seus conceitos e características, como acontece no novo Melinda e Melinda. Criada a partir de um embate entre dois dramaturgos sobre a melhor maneira de se interpretar os acontecimentos cotidianos - de forma cômica ou trágica - a narrativa passeia pelos dois atos da vida de Melinda: em ambos ela é uma mulher solitária em busca de companhia que atravessa o caminho de um casal, mudando o rumo dos fatos. E só esse argumento é preciso para que o diretor treine sua veia verborrágica. Além de seus personagens psicologicamente bem estruturados, que já é habitual em seus trabalhos, o roteirista Woody Allen insere elementos em comuns nas duas histórias, traçando um paralelismo coerente e tornando-as mais verossímeis, como a dissonância existente entre os casais que acompanham a protagonista, a chegada daquele que pode ser seu pretendente, ou até mesmo objetos presentes em cena. O Woody Allen diretor consegue manter firme sua câmera e ainda construir pequenas pérolas, como no início do filme, no monólogo em que a protagonista discorre sobre o passado que a fez chegar àquele estado: na história trágica, os motivos são explicados minuciosamente e a câmera, inicialmente distante, se aproxima e fecha a cena em um close no rosto da atriz, familiarizando o espectador ao drama da protagonista; enquanto que no seguimento cômico, ocorre o inverso, e a câmera se abre rapidamente em um longo plano. Como condutor de seu elenco, ele exibe a velha forma que levou seus atores às mais diversas premiações, sejam eles rostos consagrados ou iniciantes, como é o caso da australiana Radha Mitchell, que consegue mostrar na sutileza de um olhar os diferentes momentos vividos por sua Melinda, ainda que ajudada por maquiagens, roupas e trilhas sonoras que deixem bem claro a divergência das personalidades. No fim das contas, fica fácil enxergar que o que difere as situações é apenas a forma com a qual a encaramos. A tragédia, por vezes tão exagerada a nossos olhos, acaba tendo seu lado engraçado, assim como a comicidade carrega seu dramatismo. E se isso ainda continua sendo um "filme menor de Woody Allen", vale torcer para que ele continue os fazendo uma vez ao ano. | Sábado, Junho 04, 2005
(Secret & Lies, 1996, de Mike Leigh) "É melhor dizer a verdade. Assim ninguém se machuca". É através dessa frase, uma das últimas ditas no premiado trabalho do diretor Mike Leigh, que se constrói o drama Segredos e Mentiras. Nele, a família Purley é uma bomba relógio, à espera do momento para revelar as mentiras e meias-verdades que pesam no passado ou presente de cada um de seus membros. O grande trunfo de Mike Leigh é contar com um roteiro, escrito por ele mesmo, que com diálogos e acontecimentos eficientes, apesar da narrativa simples, não atropela o rumo dos fatos, deixando o filme crescer aos poucos. Seu domínio é tão grande que, desde o início, ele prepara o caminho para o ponto em que os protagonistas vão explodir numa enxurrada de sentimentos, o que acaba sendo um alívio tanto para os personagens quanto os espectadores, mas sem se interessar em transformar em surpresa os fatos de sua trama. Segredos e Mentiras ainda traz alguns dos melhores trabalhos de atuação do cinema, como os de Brenda Blethyn, Marianne Jean-Baptiste e Timothy Spall, que dosam na medida certa o contido e visceral, assim como a gravidade que os atos ocupam no dia-a-dia e forma com a qual cada um os enxerga. | |
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