Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema




Sexta-feira, Julho 29, 2005

SET - A referência a "2001 - Uma Odisséia no Espaço" foi propositalmente tão óbvia?
TIM BURTON - Sim. O monolito negro do filme é uma barra de chocolate Wonka. Não tenho a menor dúvida.



Sábado, Julho 23, 2005

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES
(Charlie and the Chocolat Factory, 2005, de Tim Burton)


A viagem pela Fantástica Fábrica de Chocolates de Willy Wonka só acontece uma vez: na versão protagonizada por Gene Wilder em 1971. Nessa reinvenção de Tim Burton, os valores prerrogados continuam os mesmos e a mensagem não poderia ser mais clara: alguns dos pecados capitais são dilacerados, um a um, durante o passeio das crianças, e só o humilde Charlie Buckett (mais uma atuação na medida do jovem Freddie Highmore) mantém sua tenacidade ao longo da visita. Mas o tom fabulesco e imaginativo - que era a veia principal do primeiro filme e que por isso fazia sucesso não só entre as crianças - perde espaço para a bizarrice, que incomoda. Johnny Deep exagera nas esquisitices, beirando o ridículo - diferente de seus papéis em Edward Mãos de Tesoura e Piratas do Caribe. Se não fosse tão gore, daria um belo filme-família de Steven Spielberg.



Segunda-feira, Julho 18, 2005

NOTAS DE RODAPÉ 2


- Bridget Jones: No Limite da Razão (Bridget Jones: The Edge of the Reason, 2004, de Beedan Kidron)

Essa despropositada continuação do divertido O Diário de Bridget Jones segue os infortúnios da protagonista, que mesmo depois de se afirmar profissionalmente e conseguir um namorado, continua aprontando inúmeras confusões. Mesmo com o afinado elenco retornando em cena, um único ponto é crucial para acabar com o frescor do primeiro filme: não há nem um vestígio daquela assimilação que o espectador sentia pela história e para "tampar o buraco", músicas bonitinhas e pegajosas entram em cada seqüência do filme. Talvez funcione debaixo da coberta, bem acompanhado.


- Dança Comigo? (Shall We Dance?, 2004, de Peter Chelsom)

Hollywood descobriu os filmes japoneses. E depois dos filmes de suspense, agora é a vez dos musicais. Em Dança Comigo? os personagens são exageradamente clichês: Jennifer Lopez é uma ex-dançarina que não teve sucesso na carreira e virou uma professora amargurada; Richard Gere tem uma família perfeita mas é o tédio em pessoa e encontra na dança uma nova motivação para vida; já Susan Sarandon foi relegada ao inexpressivo papel de esposa perfeita. Obviamente o caminho dos três se cruza, rendendo uma boa dose de sonolência, ainda que alguns momentos mais inspirados - vindo dos ótimos passos de Gere e Lopez - salvem o produto final. Mas dá uma saudade danada de Vem Dançar Comigo.


- Papai Noel às Avessas (Bad Santa, 2003, de Terry Zwigoff)

A idéia é muito melhor que o resultado: um Papai Noel fumante e beberrão e seu amigo, um anãozinho valentão, divertem as crianças nos shoppings durante o Natal, enquanto planejam assaltar o cofre do local. Mas o filme de Terry Zwigoff, em meio a tanto sarcasmo e ironia, não abandona o conto infantil - o personagem de Billy Bob Thornton, que encara com extrema eficiência o protagonista, xinga muito, faz sexo à vontade e até maltrata as crianças, mas conhece um menino órfão que o faz redescobrir o verdadeiro sentido da vida. Bonitinho demais para uma comédia que merecia mais acidez.


- O Grito (The Grudge, 2004, de Takashi Shimizu)

Refilmagem de terror/suspense japonês é a atual moda em Hollywood. E entre todos os títulos feitos à exaustão, este O Grito é o que melhor trabalha em cima de sua básica história. Utilizando uma narrativa não linear, que ajuda muito a manter o clima agoniante da trama, o filme consegue se manter a maior parte de tempo e só se compromete no clímax, quando o diretor Takashi Shimizu resolve incorporar as idéias de Ingmar Bergman - a personagem de Sarah Michelle Gellar volta no tempo e assiste aos acontecimentos que geraram todo o inferno pela qual ela passa - o que certamente não cai bem ao gênero.



Sábado, Julho 16, 2005

ELEFANTE
(Elephant, 2003, de Gus Van Sant)


O massacre na escola americana de Columbine já rendeu noticiários em todo o mundo, virou tema de discussões políticas e sociais, e rendeu um Oscar para o documentário de Michael Moore - que se inspirou nos eventos para mais uma vez cutucar o sistema americano. Mas, como arte, ninguém foi tão fundo quanto Gus Van Sant. Com Elefante, o diretor atinge um nível tão alto que quem só viu seus trabalhos mais conhecidos - Gênio Indomável e Psicose - corre o risco de deixar passar batido este grande filme.

É incrível o que o diretor faz com a câmera, passeando pela gigantesca escola, rotulando - mas de forma contundente, sem cair na mesmice - os diversos "tipos" encarnados pelos adolescentes de hoje, sem se preocupar em mostrar um motivo para o trágico acontecimento, ainda que sutilmente ele esteja embutido em cada cena. Brilhante.

P.S.: Se alguém tiver uma explicação plausível - até hoje nenhuma foi - para o título, favor deixar comentário.



Domingo, Julho 10, 2005

CAIU DO CÉU


(Millions, 2004, de Danny Boyle)


Danny Boyle
é tão insólito quanto este seu novo filme. O sujeito acostumado a abordar histórias de jovens aventureiros em busca de uma praia deserta ou que percorrem o submundo inglês atrás de drogas e sexo, dessa vez passeia por um conto infantil, que à primeira vista parece momento de descontração para o diretor, mas que ganha contornos mais sólidos durante sua exibição.

No filme, dois irmãos de 9 e 7 anos de idade, órfãos de mãe, mudam-se com o pai para o subúrbio de Londres e lá encontram uma bolsa contendo milhões de libras e decidem não revelar a ninguém. Mas, às vésperas da mudança monetária na Europa, os garotos precisam arrumar um jeito de gastar o dinheiro antes que ele perca seu valor.

Para cineastas comuns, juntar os garotos, muita grana e imaginação fértil até poderia se tornar um modo fácil de construir uma agradável comédia, mas nas mãos de Boyle vira um excelente meio para abordar as diferentes posturas de dois garotos que, apesar da idade próxima, agem de forma completamente oposta diante dos acontecimentos. O caçula, por exemplo, após a morte da mãe, vê e conversa com os mais diferentes santos da Igreja Católica e acha que o dinheiro nada mais é do que uma recompensa de Deus, e quer doa-lo aos pobres. O mais velho quer usufruir em seu próprio benefício - ele 'compra' os amigos da escola para se tornar popular e até mesmo monta um esquema para sua segurança.

É interessante ver como o roteiro de Frank Cottrell Boyce postula de forma bem sugestiva as personalidades dos meninos - como o fato de não conseguir dormir sozinho na cama ou desejar uma nova esposa para o pai - e, através de flashbacks incisivos, abandona o tom lúdico para mostrar o que de real está acontecendo.

Caiu do Céu ainda é irônico e mordaz, servindo como crítica ao capitalismo que cada vez mais acentua as diferenças sociais do mundo, mas no final funciona muito mais como um belo sonho inocente que faz parte de cada um de nós, por mais adulto que se possa ser.



Quarta-feira, Julho 06, 2005

LONGE DO PARAÍSO


(Far From Heaven, 2002, de Todd Haynes)


No filme As Horas, a personagem Laura Brown, interpretada pela atriz Julianne Moore, queria se libertar de todas as mazelas que o casamento "perfeito" lhe rendera, se entregar aos impulsos que demonstrava ter e viver a vida como bem queria, durante a repressora década de 50. Em Longe do Paraíso, a mesma Julianne Moore, já como a forte Cathleen Whitaker, sente na própria pele todo o peso que tal decisão surtiu na vida do marido de Laura.

O ano é 1957. Cathy e Frank Whitaker (Dennis Quaid) são o exemplo de família feliz e bem-sucedida. O marido tem um cargo importante na principal empresa da cidade, a mulher é a 'rainha do lar'. Tratam os filhos como deve ser, têm muitos amigos, são invejados por toda a sociedade local e estão sempre presentes na coluna do jornal da cidade. Mas o mundo deles desaba quando Cathy descobre que o marido tem tendências homossexuais ao mesmo tempo em que é duramente repreendida por fazer de seu jardineiro, um homem negro, seu melhor amigo.

O diretor Todd Haynes se inspirou no trabalho do cineasta alemão Douglas Sirk, que na década de 50 construía filmes melodramáticos onde a família era a representação maior dos erros e acertos da sociedade americana, para fazer de Longe do Paraíso, ao longo de seus 110 minutos de duração, a mais séria homenagem que o diretor já recebeu. O filme se segura em cima de um roteiro surpreendente, de atuações magistrais e de aspectos técnicos formidáveis, assim como os filmes de Sirk eram. A trilha sonora de Elmer Bernstein, por exemplo, é uma das mais belas já compostas para o cinema, com uma profundidade tamanha que se encaixa perfeitamente em cada seqüência do filme, utilizando várias nuances de um único tema memorável. A fotografia de Edward Lachman, que aqui realmente parece trabalhar em conjunto com a direção de arte assinada por Peter Rogness, é tecnicamente perfeita, como se ela realmente quisesse mostrar o quão colorida - e forte - era a vida dos Whitakers.

Mas se o filme vai ainda mais além, deve-se boa parte disso ao grande elenco, encabeçado pela sempre perfeita Julianne Moore. Só uma atriz do nível dela seria capaz de demonstrar em expressões sutis a postura de uma mulher que deve guardar calada todos os problemas que enfrenta, ter força para ser o sustento de uma família prestes a se despedaçar e ainda lutar contra o preconceito que a ronda. Mas quem realmente surpreende é Dennis Quaid, que faz de Frank um homem transtornado com a possibilidade de ir de encontro às "regras" impostas por uma sociedade conservadora, mostrando uma submissão não comum aos homens da época.

Longe do Paraíso concorreu a quatro estatuetas no Oscar 2003: de atriz para Julianne Moore, roteiro original, trilha sonora e fotografia.

02-12-03

postado por HUDSON às 9:33 PM

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Sábado, Julho 02, 2005

GUERRA DOS MUNDOS


(War of the Worlds, 2005, de Steven Spielberg)


O cinema já encontrou diversos modos de se contar uma história e o fato de esbarrar em temas anteriormente explorados quase sempre é um obstáculo difícil de ser ultrapassado pelos autores, deixando a 'nova roupagem' com a irritante sensação de dejà vu.

Diante de tantos filmes-catástrofes feitos nos últimos anos, em que o continuísmo da civilização humana é colocado em xeque de todas as formas, era difícil esperar que o diretor Steven Spielberg pudesse encontrar uma saída para levar às telas uma temática tão desgastada quanto a invasão extraterrestre no planeta, ainda por cima tomando como base a ficção "Guerra dos Mundos", que H.G. Wells escreveu no final do século XIX.

O que torna este Guerra dos Mundos diferente dos demais é que aqui não há espaço para lutar contra o inimigo, ainda que tentativas sejam feitas. Não há herói para salvar a Terra, nenhuma máquina ou invento é capaz de minimizar os efeitos desse desastre e nem mesmo o presidente norte-americano se aventura a dar as caras, traçando metas. É apenas o destino, a mágica da criação humana, que permite a sobrevivência do homem.

Percorrendo o caminho contrário à famosa narração que Orson Welles fez na rádio no final dos anos 30, que, ainda que contada de forma verossímil, se apoiava na imaginação das pessoas para dar sustentação à obra, Spielberg utiliza de forma plena os aparatos visuais da tecnologia cinematográfica para erguer seu trabalho. À exceção de curtos prólogo e epílogo - que na voz de Morgam Freeman ganham contornos assustadores - o roteiro de Josh Friedman e David Koepp, que apesar de cair em armadilhas comuns ao gênero, como as piadas esdrúxulas e em personagens irritantes, não está interessado em explicitar a causa e o porquê do ataque, indo direto aos efeitos da invasão, que se torna um prato cheio nas mãos do diretor.

Mas muito mais que tornar o filme apenas um veículo de exibição dos irretocáveis efeitos especiais, o texto vai direto ao ponto ao construir sua história em cima de Ray (Tom Cruise), um incansável trabalhador que só em meio ao extermínio terrestre vai descobrir que o esfacelamento de sua família é muito pior que o inevitável fim do mundo. Talvez faça mais sentido para os americanos, já que os recentes ataques terroristas - sofridos e cometidos por eles - deixou tudo isso mais presente no cotidiano do american way of life, mas a descoberta das relações humanas como forma de superação das dificuldades rende emoções intensas em qualquer lugar do mundo.

Esquecendo os belos e lúdicos E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, este Guerra dos Mundos representa um dos grandes acertos na carreira de Spielberg, e mesmo que não tenha a densidade de um Minority Report, se aventurar pela ficção científica deixou de ser brincadeira de criança regado à espetáculo visual.





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