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Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema TOP 10 - 2007 TOP 10 - 2006 TOP 10 - 2005 TOP 10 - 2004 SITES E BLOGS HISTÓRICO
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Domingo, Janeiro 29, 2006
(Transamerica, 2005, de Duncan Tucker) A falta de bons papéis femininos em bons filmes têm feito surgir uma regra em Hollywood: aquele filme comum, que certamente passaria despercebido por onde circulasse, ganha status de imperdível graças a uma atuação marcante - e isso não quer dizer que realmente seja boa. Foi assim com as protagonistas de Infidelidade em 2002, Monster em 2003, Maria Cheia de Graça em 2004 e agora com Transamérica. Não que o trabalho de estréia do diretor Duncan Tucker em longa-metragens seja ruim, e além do quê, não é todo dia que se encontra uma história de descobertas envolvendo um transexual e seu filho adolescente. Mas não há absolutamente nada novo para se mostrar e aí, surge a figura imponente de Felicity Huffman, impecável como Stanley/Bree, que em uma jornada cortando os Estados Unidos de oeste a leste, revive toda a sua vida em menos de uma semana. (Rumor Has It, 2005, de Rob Reiner) Metalinguagem é um dos artifícios mais interessantes que a arte permite. Quando bem utilizados. O que não é o caso de Dizem Por Aí. O argumento é de tirar o chapéu: uma jovem californiana viaja para sua cidade para uma reunião familiar e descobre que no passado sua avó seduziu o namoradinho de sua mãe, num acontecimento que virou assunto na pequena Passadena, na Califórnia, e depois se tornou o livro e o filme A Primeira Noite de um Homem. Mas nas mãos do irregular Rob Reiner, o roteiro vira uma pobre comédia água com açúcar, que nem mesmo a beleza de Jennifer Aniston consegue salvar. Lógico que há todo um charme na história, principalmente, à deliciosa presença de Shirley McLaine como a Mrs. Robinson, que parece se divertir como nunca frente às câmeras, mas a idéia é muito boa pra ser desperdiçada dessa maneira. | Sábado, Janeiro 28, 2006
BOA NOITE, E BOA SORTE (Good Night, and Good Luck, 2005, de George Clooney) Memorável. Este certamente é o maior elogio à Boa Noite, e Boa Sorte, o mais novo espetáculo cinematográfico promovido por George Clooney. Dessa vez liderando o filme atrás das câmeras como diretor e roteirista, além de marcar presença em cena com um importante papel secundário, o astro entrega um trabalho sério e interessante, dando ao filme uma característica única que tem ficado cada vez distante dos exemplares dos últimos anos: a qualidade da obra em conjunto. Aqui, cada detalhe é minuciosamente bem pensado e a história do jornalista Edward R. Murrow, interpretado com maestria por David Strathairn, que durante a década de 50 utilizou seu programa de TV para desmascarar as ações do Senador norte-americano Joseph McCarthy, se transforma em uma densa crítica ao comportamento dos cidadãos dos Estados Unidos no que se refere à política e entretenimento, muito mais que mera exibição de fatos históricos. Ao longo do filme é possível perceber que Murrow faz uma espécie de programa-família na CBS, mesclando temas pertinentes com entrevistas com algumas das celebridades em destaque na época, como "Mickey Rooney e sua nova noiva" ou "Judy e sua filha Liza", mas acaba mudando seu foco para os embates políticos, inflamando a opinião pública e causando o desinteresse do público. O roteiro de Clooney e Grant Heslov é tão eficaz neste aspecto que, mesmo lançando fatos isolados ao longo do filme, consegue reunir em uma só cena - que por sinal nasce clássica - os principais argumentos das diferentes visões do apresentador e da Rede CBS, falando em nome dos expectadores do canal de televisão. Outra situação notável é a percepção de que o drama de Edward R. Murrow não deixa de representar uma situação vivida pelo astro Clooney fora das telas: assim como o jornalista, o astro tem fama suficiente para fazer concessões à indústria e depois utiliza-la para atingir seu real objetivo. Foi assim com seu trabalho anterior, Confissões de uma Mente Perigosa, em que ele reuniu o mainstream de Hollywood para construir um ousado filme sobre um apresentador de talk-show que se tornou um espião da CIA, e agora com Boa Noite, e Boa Sorte, onde ele torna ainda mais palpável suas idéias, além de se firmar como um diretor de mão cheia. Há um interesse claro em mostrar detalhes do que acontece por trás das câmeras, o famoso "jogo de bastidores", como detalhes da produção, o surgimento de idéias até à gravação e apresentação das imagens, tudo de forma muito clara e desglamourizada, em contraponto com os jantares e bailes de gala, que Clooney faz questão de não deixar de fora. Mesmo com todas as suas qualidades, é bem provável que o filme seja pouco apreciado pelo público, ficando restritos aos fãs dos cults. O ritmo lento, a fotografia em preto-e-branco, a utilização maciça do jazz e a temática pouco conhecida pode não agradar àqueles que procuram diversão, mas certamente encherá os olhos dos que esperam ansiosamente por um sopro de inteligência em meio às produções pouco inspiradas surgidas nos últimos tempos. | Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
TUDO EM FAMÍLIA (The Family Stone, 2005, de Thomas Bezucha) No cinema é costumeiro: entra e sai ano e quando chega dezembro os filmes natalinos invadem as telas, geralmente feitos sob fórmulas para agradar a grande massa, afoita por uma diversão no período de férias. Foi assim com a série Esqueceram de Mim e vários outros títulos, como Um Herói de Brinquedo; mas a época também já foi sinônimo de filmes com qualidade, como o clássico A Felicidade Não Se Compra. O exemplar americano deste ano, Tudo em Família, patina nos dois terrenos e acaba não se afirmando em nenhum deles. Em seu segundo filme na direção, o roteirista Thomas Bezucha mescla drama e comédia na história de Meredith Morton, bem-sucedida empresária que durante as comemorações do Natal vai conhecer a família do namorado. Entretanto, os Stones formam um fechado círculo de convivência e a postura rígida e formal da moça vai de encontro com o pensamento dos moradores da casa, deixando-a numa intensa "saia justa". Só pela sinopse já se percebe que o roteiro padece do mal dos estereótipos e já começa a sua narrativa de forma frustrante ao construir sua vertente em cima de situações comuns e personagens tão caricatos como os que compõem os Stones. Há a tentativa de se estabelecer certa qualidade quando, aos poucos, o público passa a acreditar nas ações de Meredith, cada vez menos antipática e mais social, e desafiar o clã familiar, cujos próprios pais representados por Diane Keaton e Craig T. Nelson, cometem atrocidades - ou seja, o filme corre para o lado inverso e não existe o menor traço de dar aos veteranos a famosa carga do "exemplo a ser seguido", caminho comum seguido por outros filmes do gênero. Aqui, não importa a idade, todo mundo é falho e sabe dos erros que cometem, ainda que continuem a fazê-los. Mas ainda assim sobram situações constrangedoras, sendo que a pior delas acontece no clímax do filme, quando dois marmanjos trocam socos e pontapés correndo pela casa enquanto as mulheres escorregam na comida jogada no chão da cozinha. É de doer. Se há algum motivo para enfrentar uma sessão do filme é a atuação da protagonista Sarah Jessica Parker. Graças ao excelente trabalho da atriz, Meredith Morgan consegue seduzir o expectador e torna-lo refém de seus atos. A princípio arrogante e insuportável, a atriz dribla a rejeição de seu personagem e deixa a platéia do seu lado no decorrer da trajetória da protagonista. Uma cena em especial em que isso fica claro é quando, em torno da mesa da ceia de Natal, Meredith apresenta sua posição sobre um delicado assunto em questão, gerando um desconforto geral entre a família, que não aceita seus argumentos, mas consegue fazer coro com o público, que vibra com sua presença em cena. É muito pouco perto do que prometia ser, mas torna o filme uma experiência um pouco menos aborrecida. | Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
SE EU FOSSE VOCÊ (idem, 2006, de Daniel Filho) Quando a Globo Filmes surgiu, há alguns anos, muito se falou do aspecto televisivo que tomaria conta das produções cinematográficas feitas pela Rede Globo. Era consenso que o excelente padrão técnico, principalmente os exibidos nas minisséries, seria mantido também na telona, e a utilização de nomes consagrados no elenco seria o chamariz para o público tão acostumado com as novelas. A idéia deu tão certo que alguns dos programas de maior sucesso na televisão acabaram migrando para o cinema, como Os Normais, Caramuru - A Invenção do Brasil e O Auto da Compadecida, assim como o inverso: Carandiru e Cidade de Deus, mesmo são sendo exclusivamente da Globo Filmes, acabaram ganhando especiais na tv. No entanto, dessa vez, a produtora lança mão da tática de reutilizar idéias exaustivamente mostradas no cinema fora do país. Foi assim com Sexo, Amor e Traição, baseado no longa mexicano Sexo, Pudor e Lágrimas, e agora com Se eu Fosse Você, novo filme do diretor Daniel Filho, cada vez mais exclusivo ao cinema, que utiliza a mesma premissa dos clássicos Quero Ser Grande e Se eu Fosse Minha Mãe, entre outros. No filme, Glória Pires e Tony Ramos vivem Helena e Cláudio, um casal que depois de 15 anos de relacionamento ainda discordam sobre a importância que cada um tem na construção da família. Certo dia acordam com os corpos trocados e têm que aprender à força a conviver com as particularidades do parceiro, até que ao fim da jornada possam descobrir o quanto um representa para o outro. Longe de se transformar num dramalhão que discute a vida a dois, o filme embarca numa comédia escrachada que só não se torna melhor por fazer algumas concessões e cair em passagens despropositadas, como o merchandising em cima de uma marca de cerveja nacional ou a explicação cósmica para o acontecimento mágico. Mas a química entre os atores é tão boa que vê-los em papéis tão adversos à carreira que construíram acaba se tornando o maior trunfo do filme. Os melhores momentos, obviamente, surgem quando os personagens precisam enfrentar as atividades cotidianas e aí acontece uma enxurrada de piadas politicamente corretas ou não, que rende pelo menos uma cena memorável: Cláudio, no corpo de Helena, rege um coral que transforma a 9ª Sinfonia de Beethoven em uma batida hip hop, com direito à coreografia desengonçada. É trivial, piegas, clichê. Mas diverte tanto que até dá para esquecer os problemas - inclusive os do filme. | Domingo, Janeiro 08, 2006
OS MELHORES DE 2005 Como no ano passado, divulgo minha lista de melhores do ano, levando em consideração os filmes que estrearam nos cinemas brasileiros em 2005. A reunião de títulos é uma mera diversão cinéfila: não há a menor tentativa de estabelecer um parâmetro, já que muita coisa passou em branco. Lembrando que nas categorias de atuação não há distinção entre principal e coadjuvante e entre os roteiros estão os originais e adaptados. MELHOR FILME 2 - O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles 3 - Crash - No Limite, de Paul Haggis 4 - Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira 5 - King Kong, de Peter Jackson 6 - Marcas da Violência, de David Cronenberg 7 - O Aviador, de Martin Scorsese 8 - Manderlay, de Lars Von Trier 9 - Mar Adentro, de Alejandro Amenábar 10 - A Queda! As Últimas Horas de Hitler, de Olivir Hirschbiegel MELHOR DIRETOR 2 - Peter Jackson, por King Kong 3 - Mike Nichols, por Closer - Perto Demais 4 - Clint Eastwood, por Menina de Ouro 5 - Martin Scorsese, por O Aviador MELHOR ATOR 2 - Clive Owen, como Larry em Closer - Perto Demais 3 - Bruno Ganz, como Adolf Hitler em A Queda! As Últimas Horas de Hitler 4 - Ralph Fiennes, como Justin Quayle em O Jardineiro Fiel 5 - Javier Bardem, como Ramón Sampedro em Mar Adentro MELHOR ATRIZ 2 - Rachel Weisz, como Tessa Quayle em O Jardineiro Fiel 3 - Annette Benning, como Julia Lambert em Adorável Julia 4 - Naomi Watts, como Ann Darrow em King Kong 5 - Cate Blanchett, como Katherine Hepburn em O Aviador MELHOR ROTEIRO 2 - Paul Haggis, por Crash - No Limite 3 - Jeffrey Caine, por O Jardineiro Fiel 4 - Manoel de Oliveira, por Um Filme Falado 5 - John Olson, por Marcas da Violência | Domingo, Janeiro 01, 2006
O JARDINEIRO FIEL (The Constant Gardener, 2005, de Fernando Meirelles) No Brasil, existe uma veia social extremamente explorada nos filmes aqui produzidos, que inclusive já levantou diversas discussões a respeito da "estética da pobreza' que impulsiona as produções nacionais, principalmente aquelas focadas no mercado exterior, que seriam responsáveis por exibir uma "imagem negativa" do nosso país em outras nações. Dos filmes lançados neste ano, por exemplo, cerca de 60% se baseiam em temas que vão muito além do puro escapismo que a maioria das pessoas buscam quando procuram uma sala de cinema. Mas em outros países, ao contrário do que acontece por aqui, poucos filmes se debatem em cima de questões realmente importantes, utilizando o cinema como uma ferramenta que possibilita, ao menos, uma discussão à respeito desses assuntos. Foi preciso um brasileiro para criar um autêntico exemplar que mescla com dignidade um tema delicado e uma história que atrai público. Em O Jardineiro Fiel, adaptação da obra homônima de John Lé Carré, Fernando Meirelles, em seu primeiro filme após o sucesso de Cidade de Deus, dirige a história do diplomata inglês Justin Quayle, que durante sua passagem por Nairóbi, vê sua esposa, a ativista social Tessa, ser brutalmente assassinada e passa a investigar as causas do crime, se deparando com um esquema que envolve uma importante indústria farmacêutica que age no local. O que torna o filme um exemplar diferente da grande maioria, que costuma tocar de forma superficial em questões de ordem política e social, é a maneira na qual o roteiro de Jeffrey Caine trabalha o assunto. Até chegar ao ponto em que se dilacera a atuação da empresa bioquímica na África, sem medo de mostrar a exploração física e econômica na qual sofre a população, bem como todo o esquema vil e cruel dos grandes empresários do ramo, o roteirista não hesita em expor a realidade local, recheada de brigas entre etnias locais e pela presença constante daqueles que deveriam estar lá para resolver a questão, e não deixa-la ainda mais longe de uma solução. Não há um traço sequer de se retirar beleza de onde não há, e ao encararmos a bela paisagem da savana africana, em contraste com as péssimas condições de vida, a conclusão se torna óbvia. A temática incrivelmente bem explorada resulta num drama de várias faces, e a profusão de temas pela qual o filme passeia enche os olhos perante o roteiro, que amarra o palpável romance entre os personagens de Ralph Fiennes e Rachel Weisz a um thriller angustiante. A motivação que faz Justin buscar incessantemente respostas para a morte da mulher, muito mais que uma investigação que traz à tona fatores pertinentes à grave questão social, é a oportunidade de trazer de volta não a presença dela, mas aquilo pelo qual ela lutava. E nesse aspecto, o roteiro novamente merece aplausos por não cair na tentação de tornar o protagonista um herói destemido e perfeito. A presença do diretor Fernando Meirelles em todo o filme é clara. Como em seu filme anterior, ele consegue reunir os mais diversos elementos cinematográficos, que vão desde a montagem, que não segue a tradicional linearidade, dessa vez embarcando numa aposta arriscada, mas que não só sustenta seu trabalho como dá ainda mais consistência à sua forma, passando pela impressionante fotografia de César Charlone - que parece estar cada vez mais presente nos trabalho de direção - e pela bela trilha sonora de Alberto Iglesias, apoiada nas músicas e instrumentos africanos. Ou seja, há toda a preocupação em se criar uma obra autoral, como o diretor conseguiu com louvor, aliado à oportunidade de levar a discussão a um público maior. É o terreno onde poucos diretores conseguem chegar atualmente, e isso explica a magnitude de seu trabalho e de seu filme. | |
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