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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006
CRASH - NO LIMITE (Crash, 2005, de Paul Haggis) Los Angeles é a capital mundial nos EUA. Se esbarram por lá gente de todas as raças, vindas dos mais diversos lugares do mundo, tentando tirar a sorte grande ou simplesmente sobreviver. E nesse caldeirão de etnias fervilha muito mais que os diferentes tipos físicos, a língua ou a cultura. A intolerância acaba conduzindo esse emaranhado de pessoas a um caminho que a princípio é fácil de se julgar natural, mas que no final se torna o ponto de partida e chegada, o determinante, para qualquer um que esteja lá. E é esse retrato que Paul Haggis, roteirista do consagrado Menina de Ouro, faz em seu segundo trabalho na direção. A narrativa entrucada, amarrando uma gama de personagens, remete claramente a Short Cuts e Magnólia. Assim como Robert Altman e Paul Thomas Anderson, Paul Haggis entrelaça suas histórias com a mesma genialidade com que esses grandes diretores fizeram antes. É quase uma homenagem, que chega bem perto da excelência de seus antecessores, mas que por seguir uma temática distinta, indo além dos dramas pessoais, cruza a fronteira do mundo individual que esses outros trabalhos privilegiaram para se concentrar em estabelecer alguns paradigmas da construção da sociedade. Em Crash - No Limite, os protagonistas caracterizam tipos bidimensionais que carregam consigo a intransigência impregnada em cada um de nós, bem como o caráter humano de seus atos, sejam eles expressados de maneiras distintas ou não, qualquer que seja a classe social que cada um represente. E essa variedade étnica compreende os mais diversos tipos, que vão desde ladrões de carros, simples comerciantes, juiz de direito, investigadores e policiais, diretores de cinema e donas-de-casa insuportáveis, misturando afro-americanos, brancos, latinos e asiáticos. O roteiro coerente, sem pontas, cheio de simbolismos e metáforas, é a maior qualidade que o trabalho de Haggis apresenta. Mas sua direção impressiona por reunir um elenco pouco acostumado a dramas tão contundentes e conseguir arrancar deles atuações sinceras e fortes, como as de Sandra Bullock, Thandie Newton e Matt Dillon, além de dosar a acidez do tema com um sentimentalismo marcante - em certos momentos o diretor suprime todo o texto e utiliza apenas a trilha sonora composta por Mark Isham, com a câmera colada no rosto dos atores, para criar algumas das melhores cenas. Perto do fim, o filme recria com dignidade um dos momentos de glória de seus antecessores, quando conduz seus personagens à redenção, nunca fácil ou bem aceita, e sim dolorosa e sacrificante, apenas ao som da belíssima "In the Deep", de Kathleen Bird York. Ao final, é fácil perceber que, mesmo apoiado em outros exemplares, o filme se sobressai graças ao comando de Haggis, que impõe uma impressionante organização formal, além de privilegiar uma discussão incômoda, mas sempre pertinente. É bem provável que fale mais alto para os americanos, que vivenciam com maior intensidade toda essa discrepância de raça em seu território, mas aos amantes do bom cinema resta aplaudir a chegada de mais uma cabeça pensante entre a nata hollywoodiana. | Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
PONTO FINAL (Match Point, 2005, de Woody Allen) Woody Allen costuma dizer que faz filmes para não ter de viver todo o tempo no mundo real. Mas o mundo imaginário criado pelo diretor é quase sempre um olhar crítico ou curioso acerca dos acontecimentos diários a que somos submetidos. Suas histórias, crônicas da vida humana, estão mergulhadas em questões às quais todos gostaríamos de saber responde-las num piscar de olhos e com tanta desenvoltura, tal qual são apresentadas por ele em fotogramas. É o caso desse seu novo trabalho. Quem nunca se pegou pensando em quanto o acaso e a sorte pesam no rumo de nossas vidas? É em cima desse questionamento, tão complexo quanto antigo, que o diretor faz desse um de seus mais fabulosos filmes. Nele, Chris Wilton é um ex-tenista que abandonou a carreira para se dedicar às aulas em um clube inglês. A crescente aproximação com um de seus alunos lhe rende um importante cargo na empresa da família, além do casamento com a irmã do rapaz. No entanto, o envolvimento afetivo com a ex-noiva do amigo, Nola Rice, acaba colocando em risco tudo o que ele havia conquistado até então. Um dos fatores que tornam Ponto Final tão grandioso é a forma com a qual Woody Allen conduz seu roteiro. Sua história é clássica e genuína, cuja atmosfera vai sendo moldada no decorrer do filme, que reúne elementos bastante comuns à filmografia do diretor, como pequenas referências a outras obras e autores, além de trazer alguns novos pontos, a começar pela aura sexy que ronda sua trama. Woody sempre foi sarcástico a ponto de falar muito de sexo, mas poucas vezes foi tão longe ao mostrá-lo. O clima entre Chris e Nola, necessário para sustentar o drama dos personagens, é inebriante do primeiro ao último encontro, e a câmera do diretor consegue arrancar suspiros através de enquadramentos incrivelmente captados. Nesse ponto, é impressionante perceber que mesmo filmando pela primeira vez fora de Nova York, Woody consegue tornar a cidade de Londres elemento pulsante ao drama, e não mero palco para o surgimento de sua história. A sorte - ou a falta dela - é o que molda os acontecimentos entre seus personagens. Além dos diálogos fortes e marcantes, que são incrivelmente bem encenados pelos atores, suas ações enfatizam a temática principal seguida. É delicioso, por exemplo, perceber que Chris e Nola trilham caminhos distintos do início ao fim da trama. Ele é apresentado como um jovem que, embora tenha feito sucesso no mundo esportivo, abandona a carreira para levar uma vida tranqüila em Londres, mas ainda assim não fica longe da badalação social ao se envolver com a família Hewett, que acaba conduzindo-o a cometer atos desesperados para manter sua posição, e até mesmo quando a vida parece lhe pregar uma peça ele consegue se sair ileso. Já a bela americana aspirante à atriz que foi tentar a sorte na capital britânica, abusa da postura arrogante e presunçosa, como se estivesse prestes a aplicar um golpe na família, mas cujo destino não caminha conforme aparenta. E aqui, eis que novamente Woody surge genial ao abrir o leque e mostrar que aliado à sorte, inteligência é fundamental para conseguir o que quer, mesmo que se apossando de táticas exaustivamente conhecidas ou de planos mirabolantes que parecem nunca dar certo, mas dão. Dizer que o elenco tem atuações primorosas e que a trilha sonora tem algumas das melhores composições já criadas na história da música - que abusa das óperas de Verdi e que cresce de forma angustiante com os momentos de tensão do filme - é lugar comum para os trabalhos do diretor. O que não é comum é um autor renomado como Woody Allen fazer, depois de quase 40 anos de carreira, um filme impecável que não demorará muito para figurar no mesmo grupo de outros tantos já feitos por ele: o das obras-primas. | Sábado, Fevereiro 18, 2006
VINCENT (Vincent, 1982, de Tim Burton) Se for mesmo nos primeiros anos que se define uma carreira, a de Tim Burton começou irretocável: o seu primeiro curta-metragem profissional, Vincent, uma pérola em "stop-motion" feito quando ainda trabalhava como animador nos estúdios Disney, mostra algumas das características mais marcantes da carreira do diretor. O roteiro, muito peculiar e bastante auto-referencial, conta a história de um garoto chamado Vincent Malloy que aos sete anos de idade imagina viver em um mundo bizarro e fantasmagórico onde ele é Vincent Price, o astro de consagrados filmes de terror, é narrado em forma de um delicioso poema que foi escrito pelo próprio diretor. O que torna Vincent ainda mais especial é o cuidado com que o diretor tem para contar os infortúnios do moleque, já que a técnica dos bonequinhos em massinha conseguem ser mais atraentes que qualquer tecnologia inovadora, e aqui ainda é aliada com o tradicional e consistente desenho animado. Cabe ainda perceber que, as imagens acompanham de forma extremamente eficiente o texto, ora mostrando o mundo real habitado pela família do menino, ora o mundo imaginário que ele parece gostar ainda mais. As referências são inúmeras, e passeiam pelo cinema, música e literatura - o garoto toca na flauta uma versão da clássica "The Hoochie Coochie Dance" e é aficionado pelas obras de Edgar Allan Poe. A fotografia em preto-e-branco e narração em off do próprio Vincent Price deixam o pequeno filme ainda mais memorável e tornam mais claras as escolhas de Tim Burton, um dos poucos a fazer cinema comercial e ainda se manter autoral. | Terça-feira, Fevereiro 14, 2006
(North Country, 2005, de Niki Caro) Constatação: o empresário de Charlize Theron levou a sério sua participação no filme Monster - Desejo Assassino e colocou a garota para batalhar em algumas oficinas de atuação de lá para cá. Só isso explica sua visível melhora frente às câmeras em seu segundo trabalho "sério", depois de sair com a estatueta de melhor atriz no Oscar de 2003 pelo ridículo trabalho como a prostituta lésbica Aileen Wuornos. Em Terra Fria, dirigido pela neozolandesa Niki Caro, a atriz dá vida à primeira mulher americana a entrar com um pedido de processo por abuso sexual contra uma grande empresa do país e ganhar a causa. Para tanto, a personagem teve que enfrentar a família e desconfiança das amigas de trabalho para no fim conseguir dobrar a maior mineradora do estado de Minnesota. A narrativa imposta pela diretora, que passeia entre três períodos de tempo distintos, até deixa a trama mais interessante, mas a história passa e a produção não engrena. Mas lamentável mesmo é perceber que uma atriz como Frances McDormand precisa se sujeitar a um papelzinho sofrível para voltar a ser notada. (Zathura, 2005, de Jon Favreau) Crianças, não maltratem seus irmãozinhos mais novos. Eles não são os responsáveis pela separação de seus pais, nem mesmo se agora eles já não têm mais todo o tempo do mundo para brincar com vocês. É importante que se aprenda a dividir os momentos e também os brinquedos. Está certo, às vezes os mais novos pentelham tanto que chegam a chatear, mas no fim das contas vocês vão acabar percebendo que eles significam muito mais que aborrecimento, principalmente quando se tornarem adultos. Por enquanto, eles podem ser boas companhias nas horas de diversão, inclusive com aqueles jogos que precisam ter boa imaginação, como aventuras espaciais em que astronautas e seres alienígenas invadem a casa de vocês. Sem contar que juntos podem formar uma boa dupla e tirar onda com a irmã adolescente que vocês têm. Quando já estiverem cansados, podem escolher um filme bem bacana para assistir, como aquele tal de Zathura. E quando crescerem lembrem-se de não serem exigentes com os filmes de infância: eles quase nunca merecem ser revistos, para não estragar a boa memória. | Domingo, Fevereiro 12, 2006
JOHNNY E JUNE (Walk the Line, 2005, de James Mangold) Desde que virou moda em Hollywood, e também no Brasil, as cinebiografias musicais têm levado às telas histórias que quase sempre são marcadas pela superação, fama e paixão. Os filmes, nitidamente feitos para um público alvo - além daqueles que se aproveitam para conhecer o ícone em questão -, costumam ser exageradamente metódicos e formulaicos, mas que dialogam com o expectador, atingindo-os em cheio e acionando um gostoso sentimento de nostalgia. É impossível, por exemplo, assistir Johnny e June sem lembrar de Ray, o vigoroso e burocrático filme lançado no ano passado. Todos os elementos necessários para torna-lo mais um membro do gênero estão lá, e a trama é tão parecida que se não houvessem registros para provar que Johnny Cash, o músico em questão, realmente existiu, era bem provável que ele apenas fosse caracterizado como uma amálgama de Ray Charles. Do trauma de infância à família conturbada, passando pelo sucesso musical e chegando no inferno das drogas, quase todos os elementos presentes aqui remetem ao seu antecessor. Inclusive a atuação de um novo astro, neste caso, Joaquin Phoenix, que personifica com extremo louvor e garra os maneirismos do cantor country, até mesmo utilizando seu próprio vozeirão afinado nas canções do filme. Mas para a sorte de Johnny Cash existiu na história um motivo que tornasse sua vida muito maior: June Carter. Amiga, companheira de trabalho e esposa, além de um dos maiores talentos do entretenimento americano, June deu a Cash a consistência e a retidão que ele tanto precisava. Salvou-o da dependência de anfetaminas que chegou a leva-lo à prisão e quase acabou com sua carreira, que só se reergueu quando juntos retomaram a parceria de shows e passaram a compor e a gravar. Para o filme, a importância de June vai além: sua personagem, interpretada de forma surpreendente por Reese Witherspoon, hipnotiza o expectador. A atriz consegue reunir em sua atuação todo o carisma e consciência que ela nunca demonstrou nas tradicionais comédias românticas que costuma fazer. Arrebatadora na voz, no palco, olhares e gestos, Reese brilha e ajuda a compor os momentos mais memoráveis do filme, como a cena em que Cash desfila todo o seu charme e desejo na tentativa de ganhar a garota no dueto de "Time's a Wastin'". A cena é tão bem composta, a música tão bela, que June até pode fazer jogo duro, mas o público é obrigado a se render. Mas por se tratar de uma biografia, gênero difícil de ser trabalhado observando a ingrata tarefa de reunir em pouco mais de duas horas uma história que muita gente conhece e bem, Johnny e June merecia alguém mais desenvolto para tomar as rédeas do que James Mangold. Não que seu trabalho atrás das câmeras seja ruim a ponto de deixar a trama desandar, mas o diretor comete falhas que incomodam, principalmente na edição. Ainda assim, o filme sai ileso graças a seus protagonistas, que esbanjam graça e talento, e que tornam mágica a experiência de assisti-los no cinema. | Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006
(La Marche de l'empereur, 2005, de Luc Jacquet) O documentário francês que levou milhões aos cinemas tem de sobra o que muito filme de ficção deseja: espirituosidade. No filme, o ciclo de vida dos pingüins imperadores da Antártica é exposto sob a narração de uma família da raça - que no Brasil ganhou as vozes de Patrícia Pillar e Antônio Fagundes. É piegas, além de parecer mais um filme bonitinho produzido para a National Geographic, mas as imagens do diretor Luc Jacquet aliado à belíssima trilha sonora não deixam o público dormir. (Just Like Heaven, 2005, de Mark Waters) Não tem jeito, por mais novidade que possam ter, as comédias românticas americanas são fadadas ao esquecimento, salvo aquelas que contam com o carisma de uma Julia Roberts. O que não é o caso de Reese Witherspoon. A loira até tenta, mas não consegue ir além de uma hora e meia de diversão rasa. Na sua nova tentativa, ela vive uma médica workaholic que só depois de morta, em espírito, encontra o amor de sua vida. Ghost já tinha ido mais longe no início dos anos 90. | Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, 2005, de Ang Lee) A esta altura, todo mundo já ouviu falar do famoso filme dos "caubóis gays". O rastro de polêmica levantado por onde passa é diretamente proporcional aos prêmios que vem recebendo: Leão de Ouro em Veneza, melhor filme, diretor e roteiro no Globo de Ouro e favorito ao Oscar 2006. Mas à primeira vista, é difícil embarcar na jornada de Ennis Del Mar e Jack Twist, os protagonistas de O Segredo de Brokeback Mountain, e compreender a empolgação da crítica perante o novo filme de Ang Lee. O tom simplista adotado pelo roteiro adaptado do conto de Annie Proulx e pelo diretor, ao mesmo tempo em que rende ao filme uma magnitude ímpar, deixa no público uma angustiante sensação de vazio. A história, alardeada aos quatro cantos como um "faroeste gay", vai muito além das aventuras no oeste americano e atinge o status de um belo drama sobre a sexualidade de dois homens e os desdobramentos que suas escolhas acarretam sobre suas vidas. Ao se encontrarem na Montanha Brokeback, num trabalho de verão pastoreando ovelhas, Ennis e Jack transformam o cenário bucólico e ingênuo num emaranhado de sentimentalismo, medo e desejo que rompe com os padrões sociais da época. O caminho mais fácil, logicamente, é a fuga, mas os personagens encarnados com veracidade por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal preferem manter viva a oportunidade de reviver o romance ao longo do tempo, ainda que várias concessões sejam feitas. O roteiro de Diana Ossana e Larry McMurtry, assim como a direção de Lee, prefere a sutileza para exibir um tema tão inflamado quanto este. É um princípio natural que explica a boa aceitação do filme junto à crítica, afinal, ninguém da noite para o dia decidiu abrir os braços para a questão e tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Deve-se observar que Ang Lee e toda a sua equipe trabalharam para construir um filme convincente e que se sustenta com a simplicidade das situações, sem ofender àqueles que se incomodam facilmente. Todo cheio de simbolismo, que o engrandecem ainda mais, tecnicamente o filme caminha de forma contrária, optando por dar ênfase à grandiosidade dos cenários, em especial a fotografia de Rodrigo Prieto e a trilha sonora de Gustavo Santaolalla. Apesar da qualidade, O Segredo de Brokeback Mountain falha ao deixar o expectador alheio a seus acontecimentos. Sua linearidade não permite o envolvimento total do público, e mesmo que a lembrança o torne ainda melhor que quando visto, o espetáculo anteriormente alarmado não surge. É como se mirasse no cume da montanha, mas o alvo atingisse um pouco mais abaixo, ainda que mais além do que outros já foram. | |
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