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Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema TOP 10 - 2007 TOP 10 - 2006 TOP 10 - 2005 TOP 10 - 2004 SITES E BLOGS HISTÓRICO
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Segunda-feira, Junho 19, 2006
"CRASH - NO LIMITE" E A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER É bem provável que a maior qualidade de Crash - No Limite, último vencedor do Oscar de Melhor Filme, seja o seu lado genuinamente humano no que se refere às diferentes relações entre os homens. Ao traçar o painel social da cidade de Los Angeles, reunindo brancos, negros, asiáticos e latinos numa teia de acontecimentos intrínsecos, o diretor e roteirista Paul Haggis atinge o âmago do ser humano, aquilo que confere as qualidades e defeitos a qualquer pessoa, como eu e você. Centrado nos dilemas pessoais de cada um, o filme percorre as histórias de vários personagens para reafirmar a tese de que todos nós nos situamos em caminhos não lineares e nos comportamos desta mesma forma. E é justamente essa idéia de que não estamos apenas submetidos a uma força externa que exerce esse poder de coerção, mas sim naquilo que se vincula entre nós, nessa interação resultante, que atua na formação da sociedade. É perceptível no filme, por exemplo, que assim como foi definido por Weber, a realidade se mostre através da articulação do homem e seus valores, e que ganhe um próprio rosto conforme o olhar que se lance sobre ela. Aliás, é esta articulação que move os distintos personagens de Crash, que ao decorrer do filme basicamente lutam para manterem viva suas vontade e anseios, independentemente se isso ultrapassa a fronteira do bem-estar do próximo ou infringe leis, e as histórias personificadas comprovam isto, como a do policial John Ryan vivido por Matt Dillon: quando está disposto a lutar por aquilo que lhe é pertinente, como a saúde de seu pai ou o pleno exercício de sua profissão, o personagem se mostra determinado, ainda que utilize maus preceitos para buscar aquilo que deseja, a ponto de agir de maneira abusiva apenas para reafirmar sua postura racista e preconceituosa. É a velha história de pisar nos calos alheios: tudo caminha bem enquanto você se sente confortável, mas a partir do momento em que se sente incomodado, acaba encontrando um jeitinho de extravasar seu pesar, agindo de acordo com a sua necessidade. No que diz respeito a estas intrincadas relações inter-raciais que o filme expõe, é fácil observar que os valores de cada um se diferem de acordo com o meio cultural em que estes indivíduos estão submersos: os negros, que de uma forma ou outra estão presentes em todas as histórias da trama, são apresentados sem um padrão estereotipado, mas carregam consigo o peso da raça que ao longo dos tempos sofreu por conta da diferenciação de tratamento. Basta perceber que, seja símbolo da classe alta, média ou baixa, desempenhando seus papéis sociais nas mais diversas áreas, os indivíduos estão sempre associados ao preconceito de uma forma geral, que antes mesmo de partir dos outros, surgem deles próprios. Em Crash, a conduta humana atinge níveis que vão do comum ao absurdo, mas todos firmemente postulados e coerentes com aquilo que se espera do indivíduo ao praticar uma ação qualquer, inclusive omiti-la. É esta necessidade incessante de fazer algo, de sentir-se vivo, presente numa ciranda de atos discrepantes aos olhos dos outros e tão comum para aquele que pratica, com extremo racionalismo ou sentimentalismo, que move os personagens. É como diz um personagem a certa altura do filme: você nunca vai se conhecer suficientemente bem, desempenhar de forma plena o seu papel de cidadão, até que esteja submetido a um determinado tipo de situação. | Sexta-feira, Junho 09, 2006
MANHATTAN (idem, 1979, de Woody Allen) Ao vislumbrar a cidade de Manhattan, brilhantemente captada por lentes preta e branca, com a solidez de um personagem primordial à sua história, inserida num contexto por vezes até maior que o desenvolvimento de seus protagonistas, Woody Allen compõe nessa sua obra uma ode àquela que também justifica sua paixão pela sétima arte. Das paisagens naturais às intervenções urbanas, o diretor e roteirista passeia pelos pontos que configuram o reconhecimento do espaço novaiorquino - para ele e para o público - e encaixa sua trama ao elemento central de seu filme através de uma câmera sempre marcante, que escolhe o melhor ângulo para mostrar que, além do esplendor urbanístico, a cidade é palco das contradições românticas e desavenças pessoais do ser humano. Isaac Davis é o típico intelectual quarentão, um escritor literário que vive seus percalços como se estivesse contando-os em sua nova obra. Nela, anda de namorico com uma adolescente-cabeça de dezessete anos, convive com sua ex-mulher lésbica que está escrevendo um livro onde contará as intimidades do casal, e encontra diversão com o casal de amigos Yale e Emily. O elo exercido pelo protagonista é responsável pela teia dos relacionamentos interpessoais que Woody faz questão de dilacerar em seu filme, e o principal deles, possivelmente, reside no simples fato deixar de lado o ego e passar a aceitar que não está sozinho no mundo - e aqui, novamente, se torna ainda mais louvável situar essa história numa cidade de milhões de habitantes. É bastante perceptível que ao longo do filme o personagem de Isaac tente de todas as formas moldar os acontecimentos a seu bel-prazer: seja com Tracey, a estudante que por ele decide os rumos de sua vida que mal acaba de começar, ou com Yale, que é duramente criticado por suas investidas fora do casamento quando a amante Mary também passa a ser seu interesse amoroso, chegando a ponto de tratar do assunto com a esposa traída, ao passo que antes agia como o bom amigo conselheiro. No entanto, Woody é loquaz ao mostrar que, como Isaac, somos todos sujeitos a cometer estas falhas e as fazemos de forma despercebida. O roteiro, impregnado de piadas suavizantes e encantadoramente humano, com todos seus defeitos e virtudes, surge com força através de diálogos densos e inspirados, que se torna impossível lembrar de algo feito de forma tão sublime, inclusive pelo próprio diretor. E para construir algo tão genuíno quanto Manhattan, só mesmo alguém com a capacidade de remontar um painel social tão complexo como o berço do homem moderno. | Quinta-feira, Junho 08, 2006
FILMES DE MAIO
Sábado, Junho 03, 2006
SÉRIE EPÍLOGOS "De repente começamos a rir e a correr em direção ao balanço, que não víamos desde a nossa infância. Nós nos sentamos nele como três boas irmãs e Anna nos balançou devagar e delicadamente. Todas as minhas dores se foram. As pessoas que eu mais amo em todo o mundo estavam comigo. Podia ouví-las conversando ao meu redor, podia sentir a presença de seus corpos, o calor de suas mãos. Queria prender aquele momento fugaz e pensei: haja o que houver, isto é felicidade. Não posso desejar nada melhor. Agora, por alguns minutos, posso viver a perfeição. E eu me sinto profundamente grata a minha vida, que me dá tanto". Gritos e Sussurros (Viskningar och rop, Suécia, 1972) de Ingmar Bergman | Quinta-feira, Junho 01, 2006
O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, 2006, de Ron Howard) Muito mais que a adaptação cinematográfica de um best-seller com 50 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, O Código da Vinci é um evento. Gerou, desde o início da sua produção, as mais diversas críticas quanto à escolha do diretor e roteirista, dos protagonistas e coadjuvantes. Do público, recebeu a calorosa espera e de alguns segmentos, a perseguição por seu tema inflamado que envolve fé e religião, um dos poucos assuntos em que quase todo mundo sabe se posicionar. Estreou com a segunda melhor bilheteria mundial de todos os tempos, depois de uma pré-estréia em Cannes onde foi açoitado - e todos sabiam que isso iria acontecer. Julgar seus méritos e vicissitudes nesta fase dos acontecimentos sem se influenciar por esse afã é algo inimaginável. Além do mais, não se pode esquecer que, como bem lembrou o roteirista Akiva Goldsman, o filme é escravo de seu material original, e só observando a vendagem que a obra atingiu, não é difícil entender que se trata de um texto fácil e esquemático. Ainda assim, a versão em película ganha pontos quando não tenta ser referência para o debate de um "fato que pode mudar os rumos da humanidade", que o livro carrega consigo. E isso fica claro do início ao fim, numa narrativa que privilegia a aventura e abre mão de uma possível discussão histórica, ainda que a motivação principal, a que circunda os acontecimentos, sustente a ação. Não dá pra se prender em aspectos técnicos brilhantemente elaborados na produção por dois motivos, que vai um ao encontro do outro: o primeiro é a própria obra em si, que em nenhum momento apresenta uma estrutura que possa colocar o filme num patamar diferente de outros tantos filme-pipoca; e o segundo, é a equipe encabeçada por Ron Howard e Akiva Goldsman, cineastas que ao longo de sua carreira nunca ousaram em seus trabalhos, e não se preocupariam em imprimir uma marca autoral num projeto de 125 milhões de dólares. E ao que parece, essa foi justamente a intenções dos produtores Brian Grazer e John Calley, tendo assim, portanto, um resultado final previsível, mas satisfatório. Há algumas situações que conseguem alavancar a aventura - como aquela em que Sophie Neveau, a mocinha da história, percebe que seu pé continua afundando na água e diz que "talvez eu seja melhor com vinhos" (a piada é bastante espirituosa para aqueles que acompanham o desenrolar da situação); bem como o prólogo e o epílogo que envolve o protagonista Robert Langdon - e outras acabam por prejudicar a consistência da trama - se há algo de louvável que a obra mantinha era o fato de instigar o leitor a permanecer ligado na perseguição que passeava por algumas das mais fantásticas cenas européias, que no cinema se tornam excessivamente apressadas. Mas o foco permanece e as revelações, que surgem aos poucos, delineiam bem o rumo dos acontecimentos. Por fim, mais que uma discussão técnica e artística sobre os fundamentos do cinema, ou até mesmo sobre o efeito de um blockbuster no público, O Código Da Vinci se tornou uma queda-de-braço entre aqueles que amam/odeiam a obra, os intelectuais de plantão e os aborrecidos por causa própria. Mas vale a pena esquecer o fenômeno literário, publicitário e cinematográfico e encará-lo como uma boa diversão. Que é a única coisa que o filme se propõe, e faz muito bem. | |
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