Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema
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Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
NOTAS DE RODAPÉ 10
- Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, 2006, de Alan Resnais)
O que impressiona nesse novo trabalho do diretor Alain Resnais é o fantástico eixo narrativo que ele apresenta. Seis personagens se cruzam nessa história, dois a dois, numa combinação de melancolia e esperança, amor e ódio, pecado e perdão. Ninguém é totalmente bom ou mal, e nem mesmo se pode dizer que seus atos levemente inescrupulosos possam ser encaixados como tal, deixando ainda a sensação de que há sempre um outro alguém para contrabalancear. À medida que a história avança, enquanto uns tentam de redimir de um caminho tortuoso, outros exibem uma veia um pouco a frente do que a expressão singela dos rostos demonstram, os tais medos privados. Primor de elenco, roteiro e direção, coroados pela bela fotografia de Eric Gaultier e música de Mark Snow.
- Garçonete (Waitress, 2007, de Adrienne Shelly)
A Garçonete de Adrienne Shelly, personificada com uma clareza estupenda por Keri Russell, é extremamente triste. Não por que é uma pobre garçonete, a imagem-símbolo de algo pouco valorizado, de uma cidade interiorana dos Estados Unidos, cansada de queimar a barriga nos fogões e de servir mesas. Mas o doloroso estado na qual ela se encontra. O marido rigoroso que impõe um modo de vida diferente do que ela sonhou quando eram apenas namorados, a reação inesperada diante de uma gravidez indesejada e o encontro às escuras com seu ginecologista mostram a insatisfação de uma vida pelas metades, são coroadas pelo seu ininterrupto desejo de viver outra vida, já que seu futuro parece lhe reservar algo ainda pior - há alguns pequenos achados na narrativa típica dos indies americanos, como as conversas em off com seu bebê, que se revela a grande redenção da personagem.
- Em Paris (Dans Paris, 2006, de Christophe Honoré)
Numa das primeiras das fantásticas inserções que Jonathan, personagem de Louis Garrel faz em primeira pessoa, ele deixa claro que não é o herói do filme, portanto, se dá o direito de ser o narrador. O que ele impõe, no entanto, é o brilho maior do filme de Christophe Honoré. Seu personagem, que mistura as expressões corporais e caretas dignas de Carlitos ao charme de um galã francês, percorre Paris, mostrada de ângulos não suficientemente emblemáticos, mas nem por isso menos apaixonante - na verdade, talvez exatamente por isso - remontando para o expectador o inverno em que seu irmão Paul trancafiou-se em seu quarto, numa ferrenha crise depressiva por conta do fim de seu relacionamento com a jovem Anna - este, talvez, um dos romances mais estupidamente bem descritos em tão poucas linhas e cenas.
- Eu te amo.
- Eu sei. Eu sei que você me ama. Essa é a diferença entre nós.
- Como você pode saber que te amo?
- No começo, antes de eu te seguir para esse buraco... Nos nossos primeiros dias eu me embalava para dormir repetindo "Paul me ama". Eu disse isso alto, centenas de vezes, como uma oração.
- Palavras sem sentido. Nós mal nos conhecíamos.
- Mas algo aconteceu.
Os filmes franceses são os melhores. Especialmente os que têm uma hora e meia de duração.
- Sombras de Goya (Goya's Ghosts, 2006, de Milos Forman)
O diretor Milos Forman faz do drama Sombras de Goya um bom retrato do período em que o pintor espanhol viveu, no final do século XVIII, esboçando todo o painel político-religioso da época. Há belas cenas em que fica nítida a intenção do diretor em trabalhar os tons das pinturas de Goya, e outras tantas interessantes que envolvem o processo de criação do artista - alguns de seus quadros mais famosos e até suas gravuras desfilam pela tela - mas o roteiro se perde na relação entre ele (Stellan Skarsgard), uma de suas musas, vivida por Natalie Portman, e o padre espanhol Lorenzo Casamares (Javier Bardem). No terço final, o surgimento de uma outra personagem e a mudança psicológica de outros segmenta ainda mais a história, que não se salva nem pelo trio de astros em cena.
postado por HUDSON às 2:59 PM
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Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
:: nas prateleiras ::
OSCAR NIEMEYER - A VIDA É UM SOPRO
Oscar Niemeyer nem precisaria comemorar 100 anos, completados há pouco mais de uma semana, para entrar para a história dos grandes nomes brasileiros. A longa série de homenagens na qual passou durante todo o ano vai muito além de sua lúcida idade, e comemora na verdade o título de maior arquiteto brasileiro de todos os tempos - comemoração essa que se estende com este documentário lançado no primeiro semestre nos cinemas nacionais.
Mais que um arquiteto, no entanto, Oscar é um catedrático. Dos que possuem, como sua profissão exige, conhecimento e sabedoria nos mais diversos campos tecnológicos e, principalmente, das ciências humanas. E isso o filme de Fabiano Maciel deixa claro: já no princípio o próprio arquiteto deixa claro que criar e projetar obras da magnitude que ele faz não é um exercício de simples traços que correm soltos em folhas brancas, é preciso muito estudo - e uma certa dose de genialidade, claro - para compreender que o ideal de beleza de uma obra arquitetônica não se restringe apenas ao ‘agradar os olhos’, mas que vários condicionantes como variações econômicas e físicas do lugar também fazem parte do processo.
O documentário de Maciel não tenta ser original, mas faz o dever de casa muito bem: entrevistas com o arquiteto foram colhidas durante os últimos dez anos, além de um arquivo formidável que passeia pelos trabalhos mais importantes de Niemeyer, apresentando-os quase que cronologicamente, tornando a jornada de descoberta muito mais interessante - poucas coisas são tão gostosas quanto ver a capital de um país surgindo em meio ao nada, de seu plano urbanístico aos prédios que brotam da terra, trabalho confundido por muitos que o filme faz questão de dissociar, trazendo à tona um outro grande nome nacional, o do também arquiteto Lúcio Costa. E acaba sendo uma experiência ímpar no que diz respeito ao Oscar centenário, que em todas as entrevistas concedidas sempre deixa claro que não é nada mais que um homem comum - contestado por nomes como os de Chico Buarque, Ferreira Gullar, José Samarago e Eric Hobsbawn, que desfilam seus comentários sobre o ícone na tela.
Com a mesma "fantasia e surpresa" que o Oscar arquiteto tanto prega como objetivo final de sua arquitetura, recebemos seus comentários sobre seu próprio trabalho ("A beleza é importante! Se ficar preocupado só com função fica uma merda!"), pelas injustiças sociais ("A arquitetura pode ser usufruída pelo fodido que não tem vez!"), e até pelo presidente norte-americano ("Esse Bush é um bom filho da puta"). Essa espontaneidade tratada pelo cineasta no documentário mostra, inclusive, o avanço do tempo sobre o homem, não apenas fisicamente, mas demonstrando pequenos esquecimentos e notáveis perdas de sentidos.
Também pudera: o homem que atravessou um século de mudanças profundas, engajado politicamente, que alterou os rumos da arquitetura brasileira, dando ao concreto armado um uso até então impensável, que encantou mestres da arquitetura mundial e criou alguns dos símbolos mais importantes no país e no exterior, também se cansa. Cansa-se até de falar de arquitetura. E com um sorriso que só a boemia carioca explica, ele justifica que há algo mais importante: as mulheres. Afinal, a vida é só um sopro.
ficha técnica
Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro
produção brasileira de 2007
dirigida por Fabiano Maciel
com Oscar Niemeyer, Chico Buarque de Hollanda, Carlos Heitor Cony, Eduardo Galeano
90' de duração
postado por HUDSON às 11:10 PM
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Domingo, Dezembro 23, 2007
:: primeira-mão ::
ELIZABETH: A ERA DE OURO
Duas questões por trás de Elizabeth: A Era de Ouro despertam curiosidade. A primeira é que o diretor indiano Shekhar Kapur retoma o universo da rainha britânica, depois de um hiato de 9 anos, que se não fosse pelo fato de ter feito apenas um filme nesse meio-tempo (Honra e Coragem, de 2002, que passou despercebido), certamente seria um tiro de misericórdia numa tentativa de retomar a glória de outrora, quando um estreante em Hollywood, arrebatou diversos prêmios da crítica por Elizabeth. A forma com a qual o diretor lida com a continuidade da história, não abre precedentes para se questionar que, mesmo burocrático, ele acerta a mão na composição da obra.
Sua direção trabalha unicamente para a personagem-título, utilizando ao máximo os cenários grandiosos do século XVI, cuja perfeição se encontra apoiada nos excelentes trabalhos de fotografia, direção de arte, figurinos e maquiagem, que acompanha o tom construído no fim da primeira parte, quando a aura tímida da rainha desaparece de vez e surge a insípida "rainha virgem" que reina a mãos de ferro. A câmera que busca a figura da monarca em meio às salas dos palacetes ou disposta por sobre a cabeça das pessoas, como num jogo de xadrez vivo, justifica ainda o argumento principal dessa continuação, que se desdobra na principal batalha do governo de Elizabeth: o embate entre a fé católica e protestante, quando a oprimida Inglaterra derrotou a Invencível Armada espanhola do rei Philip.
Não há como negar, no entanto, que a sustentação da história deve-se à personificação que Cate Blanchett constrói. A atriz consegue trazer de volta o mesmo ar majestoso de anos atrás, aquele mesmo surgido no final de Elizabeth, quando a aura ingênua e delicada da irmã protestante que assume o trono de uma nação enfraquecida deu lugar à determinação digna de uma monarca, marcada pela emblemática cena do corte de cabelo e uso das vestimentas reais. Essa acentuação sobre sua figura é tão forte que, auxiliada por um roteiro frouxo em sua relação com seus coadjuvantes, a atriz esmaga qualquer colega de cena: não sobra espaço para Geoffrey Rush, Clive Owen ou Samantha Morton.
A segunda curiosidade em relação à obra é a maneira com a qual o filme foi recebido. As críticas insossas e até mesmo cruéis para uma obra que nada deixa a desejar para seu antecessor deixa no ar uma questão: desde quando Hollywood deixou de prestigiar os bons dramas político-históricos que não sejam centrados em fatos exclusivamente norte-americanos?
ficha técnica
Elizabeth: The Golden Age
produção franco-inglesa de 2007
dirigida por Shekhar Kapur
com Cate Blanchett, Clive Owen, Geoffrey Rush, Samantha Morton
114' de duração
- NA OUTRA PONTA DA CORDA -
ELIZABETH
(idem, 1998, de Shekhar Kapur)
Maria I, a primeira mulher a assumir o trono britânico, não deixa herdeiros. Morre em meio à ascensão do protestantismo na Europa, e vê em sua meia-irmã, Isabel I, próxima na linha de sucessão, recém aderida à nova religião, uma ameaça ao catolicismo inglês. Sua conturbada relação com Robert Duley, seu temor diante do novo cargo e sua transformação em uma figura forte e decidida são os focos do filme de Shekhar Kapur. O filme foi indicado a 7 Oscars, incluindo o de melhor filme e atriz.
postado por HUDSON às 5:47 PM
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Da série promessas pra 2008: Epílogo de volta!
postado por HUDSON às 5:34 PM
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