Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema
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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
:: em cartaz ::
DESEJO E REPARAÇÃO
Se Joe Wright já tinha conseguido um feito bárbaro para um diretor iniciante ao dar a Orgulho e Preconceito a adaptação que a obra de Jane Austen pedia, o que dizer de seu segundo filme, a também adaptação de outro romance inglês, Desejo e Reparação? Era natural que, como qualquer outro iniciante, a expectativa frustrasse o olhar sobre seu novo trabalho, mas a sensação deixada no acender das luzes está longe disso. O filme é uma brilhante composição de época, encerrada em uma narrativa estupenda, onde o diretor mostra que pode e sabe ir muito além, fazendo jus à história escrita por Ian McEwan e roteirizada por Christopher Hampton.
Não dá pra rotular o filme com sua sinopse que envolve uma criança que através de um ato infantil, muda as vidas de dois jovens apaixonados na Inglaterra pré-Guerra na década de 40, separando-os de forma cruel. A trama é mero artifício para construir o sentimento entre os personagens de Keira Knightley e James McAvoy, uma paixão implícita, tácita, que beirando o ódio, se torna feroz e, posteriormente, é o que os mantêm vivos longe de suas casas e famílias, em meio ao caos das batalhas na Europa. Embalados pela belíssima trilha de Dario Marianelli, os dois compõem uma dupla de protagonistas que constroem uma história quase que distantes um do outro todo o tempo e ainda assim conseguem manter o clima de romance que impera e dita o caminhar dos acontecimentos do filme.
Mas a cereja do bolo de Joe Wright atende pelo nome de Brioney Tillis. A personagem, que atravessa três atrizes ao longo dos 120 minutos do filme, é certamente o que de melhor prepara o diretor. Ela é a moviola do filme, o ponto que faz girar as peças e reuni-las sobre ela mesma. Quando criança, na maior parte do tempo, a atuação da menina Saoirse Ronan é estupenda e feita na medida da personagem: fria, gélida, repulsiva e dissimulada, sintomas claros de um sentir desconhecido e estranho à garota - posteriormente interpretada com o mesmo distanciamento por Romola Garai e com uma dose dolorosa de arrependimento e amargura por Vanessa Redgrave.
Poesia declamada em fotogramas e da melhor maneira possível: regida pelo bom e belo sotaque britânico.
ficha técnica
Atonement
produção inglesa de 2007
dirigida por Joe Wright
com Keira Knightley, James McAvoy, Saiorse Ronan, Romora Garai, Vanessa Redgrave, Brenda Blethyn
130' de duração
postado por HUDSON às 7:11 PM
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Domingo, Janeiro 20, 2008
:: em cartaz ::
O CAÇADOR DE PIPAS
Não é preciso ter lido a obra de Khaled Hosseini para perceber que O Caçador de Pipas fez uma grande transposição da literatura para o cinema. Contando com uma estrutura simples, sem perder o charme, e com certa dose de sintetismo ao contar a história do jovem Amir, de sua infância à maturidade, fica claro que o objetivo se atinge quando o filme consegue expor com boa clareza o painel político-histórico do Afeganistão, cenário principal da trama, e dar densidade necessária ao sentimentalismo impregnado a ele.
O roteiro inicia sua ação em 1978. Amir vive com o pai em Cabul, junto dos empregados da família e em especial Ali, cujo filho, Hassan, é seu melhor amigo. As crianças passam boa parte da infância juntos, mas uma série de acontecimentos faz com que a amizade termine após a saída da família de empregados da propriedade do patrão. Com a invasão das tropas soviéticas no país, posteriormente, Ali e o pai vão para o Paquistão e depois rumam para a Califórnia, nos Estados Unidos, onde juntos reconstroem a vida até que as ‘dívidas com o passado’ reapareçam e obriguem o protagonista a voltar ao Oriente Médio.
A história de redenção acaba permitindo múltiplas leituras no filme do americano Marc Forster, e as pipas do título dão o tom à belíssima metáfora que o autor traçou com a situação política e da sociedade afegã entre as décadas de 70 e os anos 2000, que no fim acaba por soar um pouco maniqueísta, como se o mesmo Estados Unidos que por diversas vezes apoiou os regimes extremistas que levaram o Afeganistão à atual situação omitisse sua responsabilidade e tentasse se redimir como a ‘terra dos sonhos e da liberdade’. Mas o respeito dos produtores - majoritariamente americanos - com a língua, atores e demais segmentos de produção mostram a vontade em transformar o best-seller em filme de conteúdo, o que foi plenamente conquistado.
ficha técnica
The Kite Runner
produção americana de 2007
dirigida por Marc Forster
com Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Shaun Toub, Homayoun Ershadi
122' de duração
postado por HUDSON às 11:06 AM
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Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
:: em cartaz ::
MEU NOME NÃO É JOHNNY
Logo depois de acordar, abro o jornal e me deparo com uma notícia sobre os filmes brasileiros de terror que estão sendo aguardados no circuito comercial em 2008. Peraí, o cinema nacional também sobrevive de filmes terror? Pois é. Além do esperado retorno de Zé do Caixão, depois de quase vinte anos sem filmar, outros dois ou três títulos serão lançados este ano. E ao que parece, essa mudança de estilo não poderia vir em melhor hora. Não que não tenhamos feito grandes filmes até então - 2007 está aí para comprovar o contrário - mas os dramas sobre tráfico, drogas e assuntos afins já cansou. E isso nos faz cair de pára-quedas numa sessão de Meu Nome Não é Johnny, primeiro longa nacional a estrear neste ano.
O filme do diretor Mauro Lima sofre de todos os problemas possíveis nessa "marcha à uniformidade" dos representantes brasileiros, a começar pela temática que dessa vez deixa de lado as favelas e morros cariocas para adentrar bairros mais nobres de classe média, numa tentativa de mostrar que não é só o pobre coitado que está enfiado no comércio ilegal - longe de ser novidade. Depois, sobra boa-vontade e falta inteligência ao compor a história de João Guilherme Estrela, o tal protagonista Johnny vivido por Selton Mello. A narrativa, para parecer mais interessante e moderninho, não assume assumir uma postura linear e, desnecessariamente, antecipa um momento lá do fim em sua primeira cena (Cidade de Deus); defende a prerrogativa da falência das instituições sociais, abordando o envolvimento da polícia no tráfico (Tropa de Elite); e ainda, traz a apática e sensacionalista mensagem de que mesmo depois do inferno é possível e ganhar um afago e seguir em frente. Não, não acredito que o homem que inspirou os fatos reais da história mereça ser escorraçado e se manter à margem, mas desacredito que alguém possa sambar na brasa sem saber o que faz - esses jamais saem de hospitais psiquiátricos.
Essa postura diante do personagem é o que de pior o filme apresenta. Dizer que ele nunca mensurou os riscos de sua 'profissão', se tornando um traficante de cocaína apenas para dar conta do seu consumo é o ato mais covarde do longa e várias são as tentativas de reafirmar esse discurso, através da criança que cresce sem limites, o adolescente com más companhias, o jovem sem estrutura familiar e até mesmo a instituição punitiva que não funciona. Os diálogos ruins, principalmente na primeira parte do filme, comprometem ainda o desempenho dos atores, que deixa nas mãos de Selton um trabalho difícil de ser aceito - o restante do elenco de apoio pouco faz para se notar em cena, à exceção de Cássia Kiss, mais uma vez marcante mas num papel pequeno demais - e uma certa dose de humor ácido e desconexo (ora funciona, ora não) dão o tom da história.
Não que acredito que todas as possibilidades acerca do assunto foram esgotadas, mas não me interessa mais saber de assuntos socialmente importantes de discussão serem tratados de maneira tão risível nas telas do cinema. Atualmente, parafraseando a famosa música dos anos 80 que marcam algumas cenas de Meu Nome Não é Johnny, é só "eu vou ao cinema e blá blá blá blá". Saldo final? Que tenhamos bons sustos em 2008.
ficha técnica
Meu Nome Não é Johnny
produção brasileira de 2008
dirigida por Mauro Lima
com Selton Mello, Cléo Pires, Julia Lemmertz, Cássia Kiss
128' de duração
postado por HUDSON às 3:51 PM
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Terça-feira, Janeiro 15, 2008
GLOBO DE OURO 2008
:: vencedores ::
Não tem premiado segurando troféu nem fazendo discurso. Com cara de leitura de indicados, assim foi o anúncio dos vencedores do Globo de Ouro 2008. De modo mais inusitado não poderia ser: dizem as línguas dos presentes na sala do Hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, onde foram lidos os envelopes, que não havia uma celebridade sequer. A festa, muito mais despojada que o Oscar, que têm seus prêmios entregues num jantar de gala com muita comida e bebida e que reúne o maior número de celebridades do cinema e TV norte-americana, foi substituída por um sóbrio anúncio dos vencedores para a imprensa, que durou apenas meia-hora, em virtude da greve dos roteiristas americanos filiados à WGA, que desde novembro estão de braços cruzados reivindicando seus direitos juntos aos grandes estúdios.
O jogo de cintura que o presidente da Hollywood Foreign Press Association (HFPA), o mexicano Jorge Cámara, teve que ter junto aos demais 60 membros da associação, coincidentemente ou não, resultou numa das premiações mais equilibradas do Globo de Ouro. Nesta 65ª edição - a primeira que não ocorre de modo tradicional - o principal prêmio da noite, o de melhor filme na categoria drama, foi para Desejo e Reparação, que saiu também premiado pela sua trilha sonora. O franco-americano O Escafandro e a Borboleta surpreendeu e além do prêmio de melhor filme estrangeiro, levou o de direção para Julian Schnabel. O favorito da temporada, Onde os Fracos Não Tem Vez, ficou com a estatueta de roteiro para os irmãos Joel e Ethan Coen, assim como deu ao espanhol Javier Bardem o prêmio de melhor coadjuvante.
A divisão de prêmios reflete também um ano em que vários filmes já estiverem em primeiro lugar nas apostas para o Oscar, a grande celebração da temporada. Até a semana que vem, quando serão anunciados os indicados para o maior prêmio do cinema, muita indecisão sobrará. Certeza mesmo só fica por conta da grande ansiedade e esperança pela presença do ótimo O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer, na categoria de filme estrangeiro. O filme acaba de confirmar presença entre os nove candidatos finais à categoria, que viu os grandes O Orfanato, Persépolis e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (representando Espanha, França e Romênia, respectivamente) esnobados. É torcer e esperar.
Todos os vencedores dessa 64ª edição do Golden Globe Awards, categoria cinema:
MELHOR FILME - DRAMA
Desejo e Reparação
MELHOR ATRIZ DE FILME DRAMA
Julie Christie, por Longe Dela
MELHOR ATOR DE FILME DRAMA
Daniel Day-Lewis, por Sangue Negro
MELHOR FILME - COMÉDIA OU MUSICAL
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA OU MUSICAL
Marion Cotillard, por Piaf - Um Hino ao Amor
MELHOR ATOR EM COMÉDIA OU MUSICAL
Johnny Depp, por Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cate Blanchett, por Não Estou Lá
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Javier Bardem, por Onde os Fracos Não Tem Vez
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Ratatouille
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
O Escafandro e a Borboleta (França/EUA)
MELHOR DIRETOR
Julian Schnabel, por O Escafandro e a Borboleta
MELHOR ROTEIRO
Joel e Ethan Coen, por Onde os Fracos Não Tem Vez
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
Dario Marianelli, por Desejo e Reparação
MELHOR MÚSICA ORIGINAL
Eddie Vedder, com Guaranteed, de Na Natureza Selvagem
postado por HUDSON às 9:20 PM
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Domingo, Janeiro 13, 2008
Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
:: retrospectiva 2007 ::
PARTE 5
 NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO (Notes on a Scandal, 2006, de Richard Eyre)
Como era: "Rápido na duração, Notas Sobre um Escândalo tem um ritmo intenso que cresce à medida que o relacionamento entre as duas mulheres se torna mais íntimo e problemático. Embalado pela música de Philip Glass, que comete mais uma de suas fantásticas trilhas sonoras minimalistas, o filme guarda melhores intenções que suas personagens dúbias e imperfeitas, e talvez por sejam tão fascinantes".
Como ficou: Desde que passou a se dedicar ao cinema, o escritor Patrick Marber tem levado às telonas histórias cruéis, viscerais e absurdamente reais. Dessa vez, adaptando um best-seller inglês, deixou um trabalho primoroso nas mãos do diretor Richard Eyre, que só precisava mesmo de duas protagonistas primorosas para fazer um grande filme. E fez. Como Sheba e Barbara, Cate Blanchett e Judi Dench travam uma batalha de bastidores, feita de dissimulação, paixão e necessidade. Suas personagens são tão profundas e o roteiro possui tantas leituras, inclusive em seus coadjuvantes, que só se pode apreciar o trabalho de Marber esperando por sua próxima incursão.
A CONQUISTA DA HONRA (Flags of Our Fathers, 2006, de Clint Eastwood) /CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima, 2006, de Clint Eastwood)
Como era: "A 'visão americana' para a Batalha de Iwo Jima, durante a Segunda Guerra Mundial, se divide entre os heróis de guerra construídos no imaginário da população, impulsionados pela união entre a política e a imprensa, e entre os homens que lutaram bravamente por uma causa que, mesmo aparentemente desconhecida, se propunha reconstruir a glória de uma nação".
Como era: A ‘visão japonesa’ para a mesma batalha acontecida durante a Segunda Guerra Mundial, não tem heróis, não tem símbolos emblemáticos, nem mesmo manifestação social. Não tem por que não há necessidade de ter. Sobra, então, a gravidade de um conflito trágico, poucas vezes tão bem filmado.
Como ficou: é óbvio que A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima são filmes diferentes. Não apenas por defender, cada um deles, o 'seu lado' do conflito mundial, mas por apresentar um olhar diferente, que se estende além da história, como se o ponto de vista defendido em cada um viesse de um cineasta distinto. Mas nas mãos de Clint Eastwood, mais que duas obras, os filmes se tornam um grande volume com duas partes que se complementam: didaticamente, como relato histórico, e cinematograficamente, com suas minúcias fílmicas. É impressionante que o diretor consiga criá-las sem se repetir, e ainda que tenham alguns deslizes - Conquista tem um teor exageradamente patriótico numa narrativa melhor enquanto que Cartas se mantém quase poético em meio a uma forte quebra entre preparação/guerra - são filmes que crescem e fiquem cada vez mais forte na memória.
postado por HUDSON às 9:02 PM
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Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
:: retrospectiva 2007 ::
PARTE 4
 EM PARIS (Dans Paris, 2006, de Christophe Honoré)
Como era: "Os filmes franceses são os melhores. Especialmente os que têm uma hora e meia de duração".
Como ficou: Em Paris é um típico exemplar francês. Sem estripulias narrativas, sem arrojos ou novidades, mas pautado numa história lindíssima e pé-no-chão, o filme percorre os caminhos dos irmãos Paul e Jonathan. O primeiro, depois de um relacionamento recém-terminado, volta para a casa do pai e trancafia-se num quarto, enquanto o segundo, um jovem galanteador, percorre a cidade aproveitando os prazeres por ela (e pelas francesas) oferecida. A ligação entre os dois é a figura do pai, doce o suficiente para se manter rígido às necessidades de sua figura paternal. Não é preciso conhecer as sutis referências que o filme faz à Novelle Vague e ao passado cinematográfico francês para perceber que se trata de uma pequena obra-prima que é coroada pelo fenomenal desempenho de Louis Garrel.
BABEL (idem, 2006, de Alejandro González Iñárritu)
Como era: "Cada passo em cena é milimetricamente calculado e funciona, conseguindo com destreza amarrar as várias arestas soltas durante o decorrer dos acontecimentos. A dor pungente catapultada das reações viscerais do elenco correspondem à risca com a verossimilhança pregada do início ao fim, salientando as crateras que surgem com o mero desviar de olhos, o esconder das palavras e as justificativas que nunca são suficientes - como se a bruta conseqüência dos fatos fossem sempre necessárias, para o bem de um e mal de outros (onde nem sempre o lado mais fraco é o primeiro a se arrebentar)".
Como ficou: a Torre de Babel construída por Iñárritu é fascinante. Seu filme funciona não como um estudo sobre as minúcias que tornam as pessoas diferentes umas das outras ao redor do globo, mas uma explanação geral de como, mesmo interligados, ainda somos tão distantes. A situação proposta pelo belíssimo roteiro de Guillermo Arriaga diz que o que separa as pessoas não são as diferentes línguas faladas em cada nação ou continente, mas a incompreensão e entendimento entre os homens, que se estende desde barreiras políticas e institucionais até sentimentos distintos que os afastam ainda mais. Nas mãos de uma equipe exclusivamente americana - sem propósitos maiores que o circuito comercial - todos falariam inglês, e depois de uma longa e desnecessária lição de moral seriam felizes para sempre. Ainda bem que não é assim.
PECADOS ÍNTIMOS (Little Children, 2006, de Todd Field)
Como era: "Contado por um narrador que tudo vê, mas nunca dá as caras, Pecados Íntimos carrega um peso literário forte, talvez pela presença do autor no desenvolvimento do projeto. Nada que o transforme em mau cinema, mas o gostinho de que poderia ser ainda melhor é inevitável".
Como ficou: A sensação de que a barreira literária não teria sido transpassada com força para o cinema cai por terra quando se observa que a intenção do roteiro de Todd Field e Tom Perrotta é mesmo trazer a presença fria de um narrador. Longe dos personagens, eles os observa e conhece seus caminhos e sentimentos, e dá ao filme um ar quase que repulsivo quando, através de uma temática forte e ousada sobre sexo - sem nunca ser apelativo - utiliza as crianças como elo de ligação para os atos dos adultos, fazendo caminhar por entre os personagens figuras incisivas que rodeiam os dois principais: Sarah e Brad, numa química impressionante entre Kate Winslet e Patrick Wilson, que torna seus relacionamentos na tela apreensivos e emocionantes. Mas o gostinho de que poderia resultar ainda melhor permanece.
postado por HUDSON às 7:40 PM
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Segunda-feira, Janeiro 07, 2008
:: retrospectiva 2007 ::
PARTE 3
 TROPA DE ELITE (idem, 2007, de José Padilha)
Como era: forte, corajoso e impactante, o filme-sensação de José Padilha ia na espinha dorsal de um dos grandes problemas do país: a corrupção na polícia militar. Sem medo de onde atirar, conseguia através de uma narrativa interessante unir a formação do BOPE, o tráfico de drogas e a classe média, e só perdia o compasso num didatismo exagerado, ainda que necessário.
Como ficou: é impressionante a capacidade que Tropa de Elite tem de comoção. E não é uma comoção barata ou forçada, com bastante facilidade de narração o filme dilacera a problemática da sociedade que financia o tráfico e que vê voltar contra si mesmo a conseqüência do fato - que por sua vez vê na outra ponta da corda a polícia corrupta não só cruzar os braços diante da situação, mas colaborar com a expansão da onda de violência e fazer surgir uma espécie de milícia especializada na tentativa diminuir o crime, numa roda que gira e parece nunca ter fim. Através dessa rede intrínseca o filme destrincha essa rede sem o menor pudor ou condolência. Ainda permanece o tom quase que didático ao expor algumas questões, numa tendência quase que educacional. Extra-filme, o que incomoda, no entanto, é que esse “cinema social” brasileiro que, com o perdão da expressão, "joga a merda no ventilador", não surte nenhum efeito colateral, ainda que milhões de pessoas, uma boa parcela sem grandes aspirações sociais, se ajoelhem diante da "excelência" do filme.
SANEAMENTO BÁSICO – O FILME (idem, 2007, de Jorge Furtado)
Como era: divertido na dose certa, cutucando a necessidade básica num discurso de fácil assimilação, sem pedantismo, desafiando o expectador comum a entender melhor a arte que tem, ano após ano, despertado interesse maior do público nacional.
Como ficou: que Saneamento Básico é um grande filme é inegável. Mas o que não é possível recusar mesmo é seu espetáculo de roteiro. Jorge Furtado é brilhante na composição da história, personagens e situações. É tão bom e ao mesmo tempo tão leve e divertido que o filme, quase sem perceber, acaba por discutir de forma bastante sóbria dois temas interessantíssimos: o primeiro é toda a preocupação ambiental que permeia a obra de Furtado, da necessidade básica que não existe na maior parte das cidades do país até a falta de conhecimento e educação dos que dela dependem. A outra é o próprio cinema e a capacidade que sua linguagem tem de ser acessível a qualquer pessoa: do processo de construção de um filme - criação do roteiro, produção, captação de recursos, filmagem, pós-produção, exibição - ao modo com que o mesmo é absorvido por quem o assiste, tudo é muito bem enfocado e facilmente entendido.
NÃO POR ACASO (idem, 2007, de Philippe Barcinski)
Como era: acaso, fatos, conseqüências. Cheio de simbolismos e metáforas, Não Por Acaso coroa o excelente ano do cinema nacional.
Como ficou: Ênio é capaz de controlar o fluxo e o trânsito da maior metrópole da América Latina. Pedro conhece a precisão necessária para, sem passar a vez para seu adversário, encaçapar todas as bolas de um jogo de sinuca. Em suas profissões, o acaso não pode fazer parte das situações cotidianas, para que tudo ocorra dentro do previsto e necessário. Diferente de suas vidas onde o menor dos incidentes ocasiona uma mudança brusca nos planos de ambos - em uma cena tão bem desenhada pelo diretor Philippe Barcinski que não se pode dar créditos à "sorte de principiante". Em sua estréia em longas-metragens, ele prova que tem a mão firme num drama que não tem um roteiro fascinante mas que ganha força na direção. Dá gosto perceber que, quase de forma métrica, ele une as histórias dos dois homens, como se antes tivesse preparado dois curtas metragens com cerca de 18 ou 19 minutos de duração sobre a vida de cada um deles até então. Formidável.
postado por HUDSON às 11:50 PM
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Domingo, Janeiro 06, 2008
:: retrospectiva 2007 ::
PARTE 2
 MARIA ANTONIETA (Maria Antoinette, 2006, de Sofia Coppola)
Como era: trabalho essencialmente visual em que fica nítida a intenção de, através de símbolos e cenas emblemáticas, sintetizar a história da monarca francesa Maria Antonieta, alheia aos interesses políticos de sua nação, não por descaso ou incapacidade, mas por uma imaturidade de alguém que aterrissou em solo francês às vésperas de uma explosão.
Como ficou: na tela ainda escura começa-se a ouvir um rock moderninho enquanto os créditos iniciais se aproximam e, subitamente, surge na tela a figura de uma jovem vestida em trajes clássicos, esparramada sobre uma confortável cadeira, em um quarto do que parece ser um palácio imperial, lambendo os dedos sujos de doces enquanto uma serviçal cuida de seus pés. A cena, síntese do trabalho de Sofia Coppola, exprime logo de início a trama preparada e apresentada pela diretora americana. A monarca francesa, austríaca de nascimento que ainda muito jovem foi levada para Versalhes numa jogada política entre os reinos das duas nações, não estava preparada para a suntuosidade da vida na corte francesa, no entanto, não declinou de sua responsabilidade e aos poucos foi fincando "os modos vienenses" aos de Paris. Cresceu sem perder sua formosura. E é essa visão completamente apaixonada, tenra, unilateral e impressionantemente sensorial que Sofia desfila em seu terceiro grande filme.
A RAINHA (The Queen, 2006, de Stephen Frears)
Como era: "Ainda que mescle diversas cenas reais ao cenário fictício montado, obviamente não dá para credenciar o filme como uma obra definitiva ou um profundo relato a ponto de passar a figurar como referência factual. Mas a ousadia de uma equipe que torna possível o surgimento de uma pequena obra-prima como esta não pode nem merece passar em branco: nada mais justo que os aplausos de pé".
Como ficou: numa comparação esdrúxula, A Rainha é aquele jovem tímido em uma sala de aula que quando indagado por um professor sobre alguma questão, solta o vozeirão com uma sabedoria espantosa. O filme de Stephen Frears não pisa em ovos ao reimaginar uma questão delicada que não só povoa o imaginário de muita gente como ainda é bastante atual e lida com egos e personagens históricos ainda vivos: a chegada ao poder do primeiro-ministro inglês Tony Blair nos dias que antecederam a morte da Princesa Diana. O foco central é o embate entre a frieza da família real, na figura principal da rainha Elizabeth II - numa construção fantástica de Helen Mirren - em contraponto a forte comoção popular frente o falecimento da "Princesa do Povo". Um primoroso trabalho em conjunto.
DREAMGIRLS – EM BUSCA DE UM SONHO (Dreamgirls, 2006, de Bill Condon)
Como era: narrativa empurrada garganta abaixo, num filme que como pano de fundo para a ascensão do trio musical Dreamgirls mantinha um discurso preconceituoso ao se posicionar de modo cruel sobre as disputas racistas nos Estados Unidos da década de 60.
Como ficou: a revisão esclarece um ponto interessante do filme de Bill Condon que é justamente seu argumento: a formação e chegada ao estrelato do trio formado por Effie, Deena e Lorrell. Como se elas realmente estivessem cada vez mais preparadas, os números musicais por elas compostos melhoram bastante em termos de atuação, músicas e composição de cena - algumas são bastante marcantes, como a bela "Listen", que garante o melhor momento de Beyoncé Knowles em tela (ofuscada pela estreante Jennifer Hudson, a mais regular do elenco). Boas canções não faltam, mas a inexistência de um roteiro mais interessante e menos ordinário não deixa o filme deslanchar. E não há como dar risada do papelão de Eddie Murphy num personagem caricato que chega a dar pena.
postado por HUDSON às 1:46 PM
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Sexta-feira, Janeiro 04, 2008
:: retrospectiva 2007 ::
PARTE 1
Assim como no ano passado, o objetivo dessa pequena retrospectiva não é trazer à tona os melhores títulos do ano passado - ainda que muitos deles estejam na lista - mas aqueles que, de uma forma ou outra, são os mais representativos, falam mais alto - pelo bem ou pelo mal -, ou simplesmente merecem uma revisão. São 15 filmes que estrearam no país de janeiro à dezembro de 2007 e já tinham sido vistos anteriormente.
 OS SIMPSONS – O FILME (The Simpsons Movie, 2007, de David Silverman)
Como era: aventura redondinha, desbocada e com lição de moral, a estréia dos Simpsons no cinema, após 17 anos na tv, se não era nenhum arrojo entre os filmes de animação, também não deixava a desejar em nenhum aspecto.
Como ficou: "Não acredito que paguei pra ver uma coisa que passa na tv de graça!". Abusado, politicamente incorreto, irônico, sarcástico. Assim é a versão em tela grande da família mais famosa de Springfield e por isso é tão bom quanto o original televisivo. A história acompanha mais estripulia cometida por Homer, que dessa vez surte efeito em todos os membros da cidade, e nela sobra tempo, claro, para o discurso moral sobre família, pais e a vida em sociedade e meio-ambiente. Tudo apoiado naquela dose de humor característica dos Simpsons. O único senão é a paródia com cenas de outros filmes, o que não deixa de ser engraçado, mas é trabalho pra turma do Todo Mundo em Pânico.
A LOJA MÁGICA DE BRINQUEDOS (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, 2007, de Zach Helm)
Como era: pó mágico que fazia adulto voltar a ser criança.
Como ficou: dizer que A Loja Mágica de Brinquedos capta com perfeição o espírito de uma divertida brincadeira de criança é pouco. Também não se permite comparar com a realização daquele sonho comum de ser trancado dentro de uma loja e só ser resgatado na manhã seguinte. O que o filme de Zach Helm permite é, provavelmente, a primeira idéia que tiveram os Lumiére quando sonharam com a projeção de figuras em movimento em uma tela: vivenciar, de alguma forma, a tal magia que dizem haver em algumas coisas por aí. Encantador em todos os sentidos, de despretensioso 'filme para criança' acaba se tornando um potencial brinquedo para adultos, com a graça e ternura que a estes faltam. Pena acabar quando melhor fica.
BORAT: O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS KAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, 2006, de Larry Charles)
Como era: "Eis o maior engodo da temporada e provavelmente de todo o ano de 2007: Borat. (...) O filme mantém uma estética documental para garantir sua possível seriedade, mas parece mesmo é ter sido filmado sem qualquer preparação, tamanha baboseira descompromissada. Como não poderia deixar de ser, é extremamente caricatural, preconceituoso e recheado de diálogos e cenas escatológicas."
Como ficou: assistir Borat uma segunda vez é deprimente - são apenas 80 minutos de duração, mas a impressão é que o filme não tem fim. Entediante, ruim, de mau gosto mesmo. Uma comédia imbecil feito as adolescentes americanas não ofende tanto. Definitivamente o pior filme do ano.
postado por HUDSON às 7:09 PM
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Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
bem-vindo 2008! e que nos reserve grandes filmes!
postado por HUDSON às 11:46 PM
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