Informações, comentários e pequenas notas sobre filmes e tudo o que cerca a sétima arte, por Hudson Dalbem, mero estudante universitário e amante inveterado do cinema
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Sábado, Março 29, 2008
:: em cartaz ::
NÃO ESTOU LÁ
Não Estou Lá foi vendido - talvez não por seus produtores, mas pela própria mídia - como uma cinebiografia. E, bem, a "colagem" proposta pelo diretor Todd Haynes não pode ser dissociada da imagem de sua figura inspiradora, mas não fosse o contorno do rosto imerso na escuridão, já perto do fim, o músico Bob Dylan, objeto da obra, não teria uma contribuição visual direta - nem Robert Allen Zimmerman nem seu famoso codinome são sequer citados no roteiro. No filme, a personificação do cantor assume as posturas de seis vértices, que juntos, assumem a amálgama de Dylan.
Do menino negro Marcus Carl Franklin se extrai a infância no meio-oeste americano regado à influência de Woody Guthrie. Com Ben Whishaw, torna-se a figura de um jovem apaixonado questionado por seus valores, enquanto segue a estrada para se tornar o pop star vivido no segmento de Heath Ledger - que ganha a companhia da excelente Charlotte Gainsbourg como sua esposa. Christian Bale dá seus ares como o artista consolidado que, em uma fase mais intimista, recebe contornos religiosos, para com Richard Gere voltar a cidade natal numa espécie de exílio natural da idade mais avançada. Mas, de forma muito inusitada, é com a atriz Cate Blanchett, intérprete de Jude Quinn, que Dylan ganha o sopro de genialidade que o filme ensaia desde sua primeira cena. A princípio, fica fácil se questionar quanto à posição desse segmento como o mais forte: é com Cate que Todd Haynes constrói o Dylan mais emblemático, o personagem icônico que nunca se importou com a opinião pública, que compôs como um louco aqueles que se tornaram alguns dos maiores clássicos da música. Mas não é apenas no visual e sim na essência que se encontra a figura do beberrão, rebelde e questionador, que personificou seu rosto nos quatro cantos do mundo.
Basicamente o recado de Haynes foi dado: quem nunca - ou sempre - achou que poderia ser ou é algo muito além que uma pessoa só? 'I'm Not There', o título que veio da música, reflete o caminho assumido pelo filme. Mas é bastante óbvio que as referências pulam na tela a cada nova cena e que Não Estou Lá é muito mais do que aquilo que se consegue ver numa primeira olhada. Ao fim, a bomba estoura sobre a cabeça: dificilmente alguém sairá alheio à obra, a Dylan e às suas canções. E mais difícil ainda vai ser encontrar argumentos para se posicionar contra. Fica até mais fácil entender os versos de 'Mr. Jones' cantados há quase vinte anos: 'I wanna be Bob Dylan'.
ficha técnica
I'm Not There
produção americana de 2007
dirigida por Todd Haynes
com Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger
135' de duração
postado por HUDSON às 3:37 PM
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Terça-feira, Março 11, 2008
NOTAS DE RODAPÉ 11
- 4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile, 2007, de Christian Mungiu)
Em tempos de discussão sobre a legalização do aborto, é bastante pertinente o forte olhar do diretor romeno Christian Mungiu sobre a prática clandestina na Romênia do final da década de 80. É óbvio que tempo e espaço não se aplicam aos dias atuais, mas o fato é que com bastante sensibilidade o diretor consegue fugir do lugar comum ao colocar nas mãos da protagonista Otília, amiga da mulher que pratica o ato ilegal, os caminhos da história de Gabriela e de seu feto. O termo, por mais grotesco que possa parecer, vem a calhar com o que Mungiu mostra ao longo de seu filme: da decisão inquestionável, dos planos quase frustrados exibidos com um misto de temor e frieza, que culmina com aquilo se espera - ou não. Tudo muito gradualmente, mexendo como poucos com a cabeça do expectador.
- Antes de Partir (The Bucket List, 2007, de Rob Reiner)
Houve uma época em que Rob Reiner era ao menos um nome forte atrás de um filme. Mas o tempo passou e cada vez mais o diretor se esconde atrás de suas produções, cada vez mais fracas e desinteressantes. Nem mesmo boas idéias, como o caso de seu filme anterior, Dizem Por Aí, tiveram resultado dentro do mínimo esperado, fato que se repete com esse Antes de Partir. Não fosse a força dos nomes de Jack Nicholson e Morgan Freeman, certamente o filme passaria batido e ninguém notaria que Reiner esteve atrás das câmeras. A dupla de atores ergue a pífia história sobre dois moribundos que se encontram num quarto de hospital e mudam seus valores a partir de então. Se as lágrimas surgem ao final, não tenha dúvida: é uma ou outra cena que faz valer a pena.
- Maldita Sorte (Good Luck Chuck, 2007, de Mark Relfrich)
Um cara bonitão (que tem um melhor amigo feioso) gosta de curtir a vida a sério, quer se apaixonar e ter uma família - em contraponto ao amigo que não pega ninguém, mas quer ser o pegador. Ele tem uma maldição: a mulher de uma noite se transforma na esposa do próximo que fica com ela. Quando ele conhece a dos seus sonhos (Jéssica Alba, quem mais poderia ser?) vem o dilema: ficar com ela e correr o risco do próximo ser o dono do coração da amada ou fugir da relação? Pingüins e uma seqüência de sexo, sexo e mais sexo complementam o tom da comédia. Pastelão de primeira, pra ver quando você já se cansou daquela lista extensa de filmes cults que você curtiu no mês passado. É ruim demais, mas não ofende, né?
postado por HUDSON às 10:36 PM
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Sábado, Março 08, 2008
:: em cartaz ::
O ORFANATO
Como um bom descendente dos suspenses espanhóis, O Orfanato não é somente uma encomenda que amedronta e faz assustar: por trás de sua história simplória sobre o sumiço de uma criança há um bom filme sobre maternidade e laços familiares - nem sempre sangüíneos - que unem as pessoas. E é em cima dessa temática que o diretor J.A. (de Juan Antonio) Bayona faz crescer sua obra. Há quem enxergue certa semelhança com o primo-rico (produção americana) Os Outros, que Alejandro Amenábar dirigiu em 2001, e a comparação, ainda que óbvia e inevitável, vai bem além do fato de ser um suspense vindo da Catalunha, uma vez que os dois guardam uma mesma estrutura de roteiro - com o desvendar-surpresa no apagar das luzes, num cenário claustrofóbico - encerrado em uma direção que, se não é inventiva, ao menos cumpre seu papel com bastante sucesso.
A história se concentra na vida de Laura, uma balzaquiana que junto com o marido e o filho, Simon, volta ao orfanato onde cresceu até ser adotada, para viver ali e fazer retornar ao local um abrigo para crianças carentes. Com o passar do tempo, às vésperas do local voltar a funcionar, o menino desaparece e a busca incessante e desenfreada da mãe pelo filho acarreta numa séria de acontecimentos que desenterra o passado do local numa seqüência de ações aos poucos apresentada.
Belén Rueda, em uma atuação primorosa, é quem comanda o espetáculo, mas não se pode esquecer da mão do estreante Bayona, que em seu primeiro filme não procura estripulias e faz aquilo que se espera dele para criar a atmosfera densa e gélida que o próprio filme pede. A ação, quase toda encenada dentro de um prédio que por si só já reserva boa dose de apreensão, ganha contornos dramáticos e sustos que vão desde sugestões à visões estarrecedoras. Em uma seqüência em especial, o diretor faz o dever de casa: sem cortes, ele conduz a câmera ora na protagonista, ora no que acontece fora do quadro dela, deixando o expectador ciente do que está por vir e ainda assim não ameniza o impacto do fato, pelo contrário, a espera acaba resultando numa angústia ímpar.
Como um bom exemplar de um gênero cinematográfico quase sempre ingrato, O Orfanato traz um roteiro que tem suas falhas e pontas que mesmo após a cena-chave não conseguem se amarrar, mas como todo bom suspense, consegue a consistência necessária para se sacramentar como um filme memorável. Depois dele, ninguém jamais ousará sair por aí gritando "1, 2, 3, bata na parede".
ficha técnica
El Orfanato
produção espanhola de 2007
dirigida por J. A. Bayona
com Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Edgar Vivar, Geraldine Page
100' de duração
postado por HUDSON às 4:29 PM
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Segunda-feira, Março 03, 2008
ALFRED 2007
:: premiados ::
O prêmio mais cool-cult-divertido do cinema brasileiro não é, nem nunca foi, o Kikito de Gramado ou Candango de Brasília, mas o Alfred, prêmio dado há 5 anos pela comunidade blogueira aos melhores filmes estreados em solo brasileiro durante o ano inteiro. Nessa edição, Jogo de Cena, Medos Privados em Lugares Públicos, Império dos Sonhos, Maria e Zodíaco duelavam pelo prêmio principal, e pela primeira vez desde sua criação, o representante nacional, o pseudo-documentário do mestre Eduardo Coutinho , foi eleito o melhor filme de 2007. O filme também foi eleito o melhor filme brasileiro do ano, ficando à frente do prestigiado Tropa de Elite.
O diretor francês Alain Resnais foi eleito o melhor diretor, Laura Dern melhor atriz e Wagner Moura o melhor ator. Entre os premiados nas 20 categorias também estão filmes como O Hospedeiro, Maria Antonieta e Ratatouille. A lista completa com indicados e vencedores está no site da Liga dos Bloues Cinematográficos.
postado por HUDSON às 10:55 PM
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Domingo, Março 02, 2008
:: primeira-mão ::
UM BEIJO ROUBADO
Era só pra ser a estréia do cultuado diretor Wong Kar Wai em um filme de língua inglesa, mas acabou se transformando num turbilhão de debuts quando a cantora Norah Jones aceitou o convite dos produtores (nenhum americano) para protagonizar a história - ela sempre foi a única opção para o papel - e a também cantora Cat Power assumiu a outra ponta, numa coadjuvante de poucas cenas, mas ouvida a todo instante com "The Greatest". A união do trio aos célebres Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman e David Strathairn poderia resultar num tom bizarro, daqueles célebres filmes que de tantas constelações começa a soar como uma guerra de egos inflados, mas não é exatamente dessa forma que o filme se apresenta.
Um Beijo Roubado é seguramente um filme de menor impacto do mestre chinês se comparado a sua extensa filmografia asiática, mas nem por isso destoa de seus trabalhos anteriores ou perde o charme perante clássicos como Amor à Flor da Pele e Amores Expressos. O diretor consegue manter sua atmosfera inebriante ao filmar um gênero que os americanos conhecem bem: o road-movie. Nele, a protagonista Elizabeth vai de Nova York à Las Vegas, passando pelo meio-oeste dos Estados Unidos, conhecendo pessoas e situações com as quais nunca tinha convivido até descobrir que seu lugar é onde sempre esteve. Seria um chavão, não fosse a boa condução do roteiro, principalmente no que diz respeito aos fantásticos coadjuvantes que a história apresenta. Todos eles cruzam o caminho da personagem principal agregando a ela algum significado que justifica a sua jornada pelo continente, numa descoberta de sentimentos e pesares que, se já eram óbvios para a própria Elizabeth, salta aos olhos do expectador em meio à calmaria imposta pela atuação da estreante Norah. Dizer que a cantora tem talento nato para o cinema é arriscar um palpite muito forte para uma iniciante, mas num papel feito sob medida para ela, é inegável seu bom desempenho na telona. O que ocorre, no entanto, é que essa mansidão frente às situações por ela enfrentada acarreta num contraste sem tamanho em relação aos demais personagens, e aí, não há escolha: Rachel Weisz e Natalie Portman brilham em suas participações como uma mulher que tem um conturbado relacionamento com o ex-marido - interpretado pelo sempre ótimo David Strathairn - e uma jovem viciada nos cassinos de Vegas, respectivamente.
O tal beijo roubado do título se deve ao nascente relacionamento entre a protagonista e Jeremy, vivido por Jude, o dono de um café em Nova York que aguarda a chance de ver novamente a mulher pelo qual nutre uma daquelas paixões gostosas de serem vividas: sem perspectiva, sem planos ou projetos, sem choro ou dor de cotovelo, mas que faz suspirar e esperar pela oportunidade de vivenciá-la. Os dois constroem uma espécie de suporte um para o outro quando se vêem numa ciranda de relacionamentos frustrados, numa cumplicidade ímpar que gera alguns belíssimos momentos, como a cena da descoberta das chaves abandonadas no café Klyuch.
A predileção por um cinema de slow motion, visto por vidraças e fotografado pela maestria de sempre de Darius Khondji pode não agradar aos mais ortodoxos que não festejam Wong Kar Wai. Mas aí, não há nada de errado, é só uma predileção. Como as tortas de blueberry.
ficha técnica
My Blueberry Night
produção franco-chinesa de 2007
dirigida por Wong Kar Wai
com Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman
111' de duração
postado por HUDSON às 11:45 AM
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Sábado, Março 01, 2008
SÉRIE EPÍLOGOS
"Demorou quase um ano pra chegar aqui. Não foi tão difícil cruzar a rua no final. Só depende de quem o está esperando no outro lado."
Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, EUA, Hong Kong/China/França) de Wong Kar Wai
postado por HUDSON às 5:46 PM
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